quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A minha Embriaguez

A vida é engraçada, a vida é gostosa. Com cheiros, sabores, e surpresas. Eu descobri, eu descobri o afeto, e não tenho mais medo dele. Quero com doçura o que antes era para mim fraqueza. Não que me faltasse, muito pelo contrário, o conheço bem. Mas eu tinha medo, medo da doçura. E receio de que a felicidade fosse passageira. Tolice. Eu era infantil porque me achava forte. Ah, meu Deus, me salva da árida ignorância. Eu tinha medo e queria entender com garantias e certezas. Enquanto por dentro o afeto, como fosse  uma bola flamejante,  me irritava o corpo e me chamuscava o espírito.

É um paradoxo, a transbordar em mim tanto afeto e eu a pensar, pensasse em administrar, equacionar, conceitualizar, e ele por ali a queimar, a me dizer que dois mais dois são cinco...

Agora bebo com prazer, seja no cristal mais fino ou no gargalo, sem agenda, sem hora marcada, bebo até a última gota do afeto, sem economizar. Embriago-me. E quando da embriaguez, ébria do entendimento da falta de explicação, sinto me invadir uma felicidade que nada tem de eufórica, é a pura contemplação da vida.  O que sinto é um preenchimento do mundo, do mundo que antes não cabia em mim. É um estado, a felicidade é uma percepção que palavra alguma poderá explicar. É quando o mundo vive e me basta. Basta sentir que a vida só existe pelo afeto.

Embriago-me. E quando da embriaguez, ébria do desentendimento, tomada pelo afeto que é a felicidade viva, sim, sim, sim, eu devo confessar que tinha medo. Medo de compreender o que está vivo e que a vida, complexa e sem rédeas me conduz, ela dança pra mim. A vida pela vida está correndo solta, arfante e generosa.
Quando ele chegava, o afeto - toda vez que me encarava - eu ficava bruta, calada, queria entender com a razão, que nada sabe sobre o que é vivo. É que eu tinha medo. Medo da felicidade que me deixa sempre embriagada, com uma ausência da vida, uma ausência boa, uma ausência plena. O afeto me reboca, me arranca da vida que se pensa, me salva desta vida da razão que me fez sentir medo, medo do efêmero gosto das coisas. Agora, eu quero os segundos que não se repetirão. Aprendi a desejar com inocência - e ser inocente me enche de bravura. Agora anseio o momento de dizer: - eu estou aqui, estou aqui para sempre, o para sempre que é o agora, o sempre de alguns instantes, talvez horas, o sempre da felicidade viva, tão viva que dá a impressão de uma ausência da vida. Eu sinto um gozo de morte, de uma morte intensa, a morte que é o encontro de todos os desejos. Eu estou na vida e sinto este gozo, esta morte repleta de afeto.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Relâmpagos

Ninguém pode impedir o segundo mágico do pensamento.

O pensamento esta morada segura, catre dos tímidos, rede do sonho, o pensamento, mundo intransponível, onde pelos olhos meus entras no relâmpago que se faz quando te vejo, como em um filme onde os frames se misturam, como em um filme onde a cena se torna outra, outra, outra e mais outra, luz, raios cruzam a porta do pensamento que por agora é uma câmera invasiva, o próprio olho é o pensamento, a gente sem personagem, sem texto, sem cortes.

Ficas a vagar na minha frente e te rapto com meus olhos para o abrigo confortável onde te tenho no fascínio do pensamento porque quando estás na minha frente nada mais posso fazer a não ser calar, viver, deixar existir a realidade do jeito que ela me quiser. A realidade, eu a adoro, ela me deixa de perna bamba, e me encanta quando dança, dança em mim.

Mas eu deixo. Deixo que nada aconteça, deixo como está, quando te vejo penso apenas penso e me torno um pouco menos humana, me torno um pouco melhor do que fui, procuro a verdade de cada pequena emoção e esqueço o meu ser cheio de razões e insanidades, cheio de mimos, para que nada interfira entre você eu, entre você e eu só nós, só eu estou a te olhar. Devo te contar, devo - olho fundo e com delicadeza, para não provocar estragos, não ter turbulências, não ter que catar os cacos - aqueles que, me ferindo, pisarei - e te trato bem e te admiro e te protejo e me protejo de mim.

Eu que sempre tive opinião e sempre disse - quero a realidade e não a normalidade porque ser normal é uma coisa doida cansativa - descobri que quero ser melhor, e ser melhor às vezes é apenas não ver, recolher, ser uma escolha a menos, um não querer tristonho e sincero.

Desculpa se paro agora este bilhete que nunca lerás pois mal e mal desconfias o quanto estás a passear pelo meu pensamento, o meu pensamento é um relâmpago e eu preciso parar porque quase chove, chover de verdade, e eu tenho medo, um medo doce, aquela espécie de medo do qual não se tem medo, aquela espécie de medo que se quer desbravar.

É o meu pensamento que está querendo viver.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

...porque chovia...e eu estava descalça...

...ocasional, imperfeito, uma saudade do que ainda vai acontecer sem hora marcada, sem previsão, bem assim à vontade, eu vou estar de saia e sandálias, a cerveja vai estar gelada, vou sentar na calçada e tudo vai ser como a descoberta daquela rima que faltava no fim...

...acaso e coincidências me fazem rir demais, lembranças a me deliciar com o inédito que vai ocorrer, palavras que soam bem, a noite se apresenta em detalhes como se não existisse nada além do prazer que fica congelado, nesta história que precisava de você e de você para acontecer, em uma certa rua, naquela esquina, do outro lado do mundo, como a letra de um samba antigo onde cada frase já nasce com melodia...

...a chuva que me lava, me leva, meu pés descalços, meus cabelos pingam displicentes e essa mão que segura a minha, essa mão na minha cintura é tão bom que só falta você ler pensamentos...

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Das Minhas Sinceras Lembranças

...Tem dias que o que eu mais queria era voltar para a barriga da minha mãe.
Sabe-se lá o que isso quer dizer além de medos, carências, colo...
Estou cansada.
Ando com os nervos estragados.

E não há nenhum fato incrível que me leve a esta constatação. São os acúmulos. Eu que já passei por sustos que me deixaram marcas na íris, estou fatigada com a indisfarçável falta de charme deste mundo.
O mundo é a casa de um cientista louco, onde tudo que você pensa pode existir e para além da imaginação, se o terrível não me chocar, me pego a elaborar uma plausível explicação. E me canso. Não há lógica para certos horrores. Eles incomodam porque refletem uma incapacidade ampliada, minha dificuldade para lidar com o mínimo. Espero que a filosofia, a literatura, o exercício do afeto - me salvem da inadequação, do constrangimento cotidiano que o superficial me causa. O mundo está desbotado. E mais assustador que a ausência de charme sabe ser o mau gosto.
Nem vou entrar no mérito! Outro dia talvez.

Como antídoto, preciso dos rituais, e a cada dia esta necessidade me põe mais esquisita, me deixa incontrolavelmente primitiva. É...primitiva e na contra mão, fora de certas condutas, por vezes ingênua, pois renego ter que descobrir o que não é mostrado - a vida como tradução ressentida e sem prazer. Onde foi parar o estilo, o detalhe, onde se escondeu o charme deste mundo?

Desejo o ritual. E desejar o ritual é recusar a imitação da vida. Quero a vida e não um código de barras, quero o inusitado e não a garantia morta, quero a piada fora de hora, a gafe, o improviso. Preciso do ritual para que ele me livre dos apegos e me eleve ao que é divino, para que me torne mais confiante nos meus dons, nas minhas virtudes e faça transparente a minha fraqueza. Preciso das fraquezas. Não me importo. O ritual me humaniza, me faz sentir a vida que existe na vida. A vida dentro. O fundo. A vida quente.

O amor é um ritual.
A amizade é um celeiro, é a fértil terra dos rituais de amor. Quem não entender isso que digo, não olhe nos meus olhos, não fale comigo, pois estou a procura dos lugares onde a vida existe.

Os rituais de amor. Os filhos, amores que alimento diariamente - com comida e sonhos - no mais atávico dos rituais. Sou das cavernas. Não sei muito bem. Sinto. Ensino o imponderável, reaprendo o que já sabia, estou a nadar na vida, não posso parar.

Uma vez no zoológico, os meninos pequenos, um deles recem-nascido, observávamos os gorilas, quando um funcionário me apontou a fêmea que adotara um filhote, aquele que sem a mãe biológica acabaria morrendo, deprimido, não me lembro claramente detalhes, sei que há uma relação entre cheiro materno e rejeição. No entanto os dois se entenderam e com o pequeno pendurado em seu corpo se fazia desfilar entre as enormes pedras do cativeiro. Eu sabia do que se tratava e não era ciência.
O que me parece é que a natureza é ampla, enigmática, poderosa. Tudo que é vivo surpreende. E o ritual é mais um modo de celebrar as surpresas.

Escrevi:

"Eu, como boa fêmea que sou, tenho instintos e não os nego, aceito e com satisfação os conservo, a todos. Quando o vejo, ele está sobre a cama e eu - como boa fêmea que sou – reajo, em um primeiro impulso quero lamber o peito nu, banhá-lo por inteiro, envolver seu corpo pequeno e inocente num balé de mãos, olhos, pele, e misterioso entendimento, quero banhá-lo, lamber a pele branca, as costas magras, os olhos ainda distantes, quero banhá-lo com a água benta da minha boca, protegê-lo e curá-lo, apresentá-lo ao mundo neste ritual que não aprendi, adivinho, tocar as mãos, tocar os pés e sentí-lo, como somente um animal pode fazer, com total irracionalidade."

Não era um sentimento, era uma crença.
Mostrei o texto para uma pessoa. Ela ficou muito empolgada e disse:

-(risos)
- Nossa, que erótico hein, qual é o foco, de onde você tirou isso?
- (...)
Não falei nada, fiquei até meio amuada. Desisti de explicar.
Hoje eu apenas diria:
- Ah, querida, erótica é a vida, é a vida.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Hoje é Vinte e Três

A ninguem nosso segredo revela
guardemos a felicidade que para este mundo não foi feita
E se aos outros vontade tola é o que aparenta
Saibamos protegê-la no cristal traslúcido de um frasco
Para quando juntos estivermos
Me baste apenas ver-te, ver-te
No perfume espalhado entre as estantes

A ninguém conto nosso segredo
que feliz germina em terra úmida
Zêlo maior que o meu ninguém alcança
Cuido que cresças,
Dou-te rimas exóticas, e desconheço
Para além deste jardim o mundo louco
Guardemos pois os risos, a beleza
Se a alegria cala a quem não ama, ao desatento

A ninguém nosso segredo revela
Guardemos a felicidade como quem deseja o que não pode ter
Lembra que o mundo lá fora está morto
Está cinza

Chamo teu nome
Abro portões, convido
Mas saibas do mundo proteger o que te entrego
O amor que desaprendi, confesso
Um jardim no meio do labirinto
Flores - flores - flores
E eu coberta de versos

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

'Lava' - deriva do italiano, da palavra latina labes que significa queda, declive, ou penetrar.

Os dias estão esplêndidos. As estações intermediárias são intensas e de uma luz muito branca. A temperatura é amena e a noite desce devagar no céu do bairro de Botafogo onde do pequeno terraço vigio o movimento da rua. O cristo redentor, o letreiro da padaria da esquina e o morro Dona Marta, acendem. Anoiteceu. Fico deitada no escuro, os pés descansam na água, o corpo estirado a sentir o calor da madeira que ainda guarda o sol que se fez quente na primavera. Estou grata. A noite se instala fria, um vento leve me traz imperceptíveis tremores mas permaneço com olhos no céu estrelado e ao meu redor o cenário, pessoas na rua, carros. A vida comprovada por barulhos, casas, vozes espaçadas. Também eu sou um som, um pensamento, uma respiração.

Devo confessar: volta e meia tenho dúvidas sobre a veracidade da vida. Porque a verdade é apenas mais um conceito e quando me perguntam se é verdade o que escrevo, sorrio. É claro que sim. É claro que não. A verdade e a mentira estão juntas, coexistem na simbiose da criação. Se sustentam. Vasculham o que está lá embaixo, ou talvez, muito acima do que enxergo, são traduções de movimentos, pesquisa, documentação da existência, revirar de papeis, fotos e guardados de quem fui, ou daquilo que me parece ser.
Abra-se o arquivo morto e a vida se fará. Vou construir verdades? Mentira...

Há quem acredite que o escritor, o cronista, precisa de um fato acontecido, ou melhor, apenas de um fato. Posso dizer que quando escrevo preciso somente do que for autêntico porque a mentira autêntica é de uma verdade enrubescedora. O autêntico é palavra-sentimento. Não tem antes nem depois, é o momento que escrevo, já, o instante acontecendo. A vida está aqui e não posso mais com decisões, análises e resultados, estou farta dos cartórios, a vida é berço do tempo presente, a vida é uma prática, o que posso dizer é que não há mais lugar para a burocracia. O agora está vivo e todo o resto está morto. A vida é. E a quero atrelada em mim, eu montada nela. Estou em todas as realidades. Na minha respiração, sozinha. Estou no é.

Fico a olhar através do vidro, estou a pintar sem pincéis, sem nenhuma tinta, estou a pintar sentindo por dentro o desenrolar deste mundo. Sou o personagem que pulou a janela e foi conhecer cada palavra, aquilo que estava escrito. Destranquei, balancei pernas sobre o batente, saltei, abri os braços para que o sol me cegasse e me aquecesse. Viver é contraditório. Porque o medo é enorme mas o céu é azul. Viver parece de mentira. Porque não me é permitido voltar um passo atrás mas um aterrorizante alívio se aloja logo abaixo das minhas costelas. A vida pode ser violenta. Abrir a janela, saltar.

Ouço tua voz.
- Eu senti e amei, do amor mais puro e infernal, enlouqueço mansamente, sou feliz mas a vida me parece errada, o amor me enfraquece com seus minutos de morte, e me parece estranho que morrer possa ser prazeroso. E eu gosto desta morte, eu gosto com aquele tipo de urgência de quem não terá amanhã.

Ouço tua voz.
Estou parada. O corpo não me revela, mas minha mente trabalha em velocidade-luz e me deixa sem espaço para qualquer gesto que não seja o de respeitosamente ouvir. Estou de olhos fechados para que as palavras não sejam apenas palavras, raizes mortas. A palavra respira. A palavra é. Ouço.
Angústia.
Tormento.
Sonho.
Nada é mais autêntico do que a minha vontade de estender o braço e deixar que a mão descanse sobre o ponto exato, mediano, ali no deserto do tórax, por onde jorram as palavras que aparentemente saem da tua boca. Te olho. A boca é um lugar vazio por onde o ar transita. E é no discreto vale, pequena depressão do corpo, onde vejo ondular as lavas excessivamente quentes, a matéria prima das palavras.

Autêntico é o muito deste amor feito da emoção raptada.
Deste amor feito de pequenas mortes em vida.
Desta vida sob a vigilância do mundo.
Deste amor que me foi contado quando estendi o braço e as palavras estavam vivas.

domingo, 7 de outubro de 2007

Sábado

Sábado.
Saí.
Fui até a casa de V.
Gosto,um gostar sem aflições.
Lascas de salmão, queijo duro, azeite derramado sobre o prato.
Pão de centeio, vinho escuro e fresco.
Nada nos faria mais felizes do que a simplicidade.
Comemos, bebemos, celebramos. Dionísio e o tempo.
Havia música e silêncio no tranqüilo entendimento da impermanência.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

...Diário Intimo De Uma Vida...

Rio de Janeiro, 04 de Outubro de 2007 (17:53)

...Vagamente, como uma bruma a encobrir a paisagem que pouco a pouco fosse esvaindo e pedaços do que existe se mostrassem, mas não por completo, apenas o contorno e a idéia, a deixar para nós a escolha do desenho final.
...Vagamente, a madrugada, linda, aveludada, cansa aos olhos por muito, muito admirá-la mas são segundos tão encantados que aos nossos olhos não parecem reais, e chega a aurora, linda e tão mansamente, que não podemos vê-la chegar.

Começo este Diário. Sem nenhuma verdade ou pré-requisito estas palavras sem o menor sentido. Sem definição deixo estar, pois que até para a perfeição deste mundo houve a intervenção sem hora marcada. O acaso não é burlesco, o acaso é divino. Deus existe no despreparo, existe fora da receita, e também eu me apresento, como alguém que jogou fora o rascunho, vou contar a história sem nenhum enredo. Deste modo seguirei pelo avesso, e às vezes, vou ali, pelo direito, vou apenas escrever, escrever como quem escova os dentes, pela necessidade absoluta de se manter, na relutância e no prazer,com algum senso de normalidade. (assunto para depois)

Um diário, quem diria! Logo eu que tenho certos cansaços - também os tenho para o óbvio - e se realizo coisas, é por pura obrigação de existir com alguma dignidade, ou forte neurose mesmo. Afinal, nasci no final dos anos 60, sou mulher, já pensei sobre isso, a mola que move o mundo é a mola das compulsões e das neuroses, não a da inteligencia, ou da bondade, e seja de que gênero for, sim, foi este tipo de coisa estranha que nos fez chegar até aqui: cismas, neurastenias, loucuras e muita compulsão.

E nos obriga a ir em frente, isto sim senhor, esta espécie de necessidade sem nenhum glamour, que mal consigo explicar, e nem mesmo sei se devo, não quero ser didática, quero atirar a lógica ladeira abaixo, quero escrever este diário, deste modo - como quem dita para si a própria Bíblia. Que seja um diário, humano e intimo, cheio de poesia, tristeza e glória, o meu livro de notas e aberrações. Também o quero sem fórmulas e quando alguém o ler que faça sem procurar respostas, mas o sinta de forma única como eu o senti, que o tome como seu...

Então, vou começá-lo sem nenhum plano porque toda realização começa do desgoverno: neuroses e instinto de sobrevivência, e eu me qualifico entre essa multidão, solta por aí, sou movida por uma inquietação que me faz escrever. Aceito, oras, questionar o quê? Escrevo, e está dito, escrevo por pura neurose - nem sempre por gosto - e não sei exatamente em que buraco escuro esta vontade contraditória vive, onde este querer, não querer, se alimenta. É uma fome que não termina, uma falta que me alicia, e ainda que diga não - cansei, não quero mais - vem a vontade em busca da minha submissão. Porque a vontade selvagem me submete, me sufoca, e só me larga se escrevo.

Escrevo. O antigo, novo e desconcertante. Mentiras, verdades que não foram ditas, e invenções ainda não descobertas, não importa, eu desejo cada palavra, desejo capturá-las apenas porque preciso existir dentro delas, preciso de uma casa para morar. E vem junto um prazer, uma ausência de mim, vou me escrevendo no Diário - meu pequeno inventário intimo, este prazer maior que o sexo...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Se

Não que ela não fosse interessante, era demais até, não era bonita claramente, mas o que importava é que possuía um tipo de beleza cheia de gosto, beleza a ser descoberta. Sim, ela era um continente a ser explorado, um sítio arqueológico imenso...

Não que ele não fosse um homem a quem qualquer mulher olharia duas vezes. Olhavam sim, elas olhavam inúmeras vezes. Mas eram olhares de pesquisa. Não que ele fosse um homem sem atrativos, era um homem como cabe a um homem quase belo ser, desprovido da ilusão dos artefatos, que não acredita na facilidade. No rosto dele, a cada novo olhar, ela percebe um detalhe que antes não havia, e nos repetidos encontros ele se transforma, a cada vez um novo homem, simples, e este detalhe lhe caia bem, ausência de vaidade, como um homem deveria ser...

Não que ela fosse a mulher da vida dele, não era, e ele soube desde sempre, e nunca quisera se enganar a respeito deste real sentimento: a certeza do que não é para acontecer. Mas porque ela era interessante - e apesar de ter conhecido muitas outras mulheres a sentia diferente - desde o primeiro minuto a quis da forma como um homem pode querer uma mulher: sem muita explicação. E porque, e afinal, ela gostasse de dirigir à noite, enquanto ouvia uma música triste no rádio, e comesse algodão doce deixando o açucar lhe sujar a boca, e gostasse de gargalhar das piadas mais suspeitas e de se embebedar enquanto pensava sobre seus próprios pensamentos e porque, e afinal, ela fosse esquisitinha, ele muito gostava dessas facetas.

Não que ele fosse másculo, e forte, e corpulento, não era, era natural, felino e monossilábico ao comprimir levemente os olhos como se estudasse o momento de encantar, e porque ele era míope ao usar o óculos este se misturava ao rosto cheio de ângulos, e como se adivinhasse o resultado exótico, aproveitava o artifício como uma beleza conquistada, adquirida. E embora soubesse que ele não era o homem da sua vida, ele possuia uma consciência de cada movimento, ou seja, ela sabia que ele era o homem para o momento...

Não que fosse uma grande paixão, não, ele não faria loucuras, nem teria atitudes extremas, mas era só dela este jeito de pressionar sua nuca e ao mesmo tempo sorrir enquanto repentinamente se calava e se abstraia de qualquer assunto, e no absoluto silêncio sabia como falar as coisas mais importantes para que o mundo se tornasse infinito e pequeno ao mesmo tempo, o mundo era aquela mão na sua nuca, aquela mão que nem era tão bonita, era comum - ele diria, extremamente comum, apenas aquela mão na sua nuca...

Não que ele fosse um homem inteligente, era mediano, inteligente sim, em mínimas coisas, mas não acerca das situações do pensamento, vivia a realidade sem fantasia, e ainda que não fosse brilhante tinha momentos seus. Ela sabia que esta genial simplicidade o fazia ser alguém e que acima de qualquer filosofia havia aquele nariz meio quebrado, adunco, formando uma curva acentuada no rosto dele...

Não é porque ela fosse diferente, era o silêncio que vinha dela, pausa onde existia um discurso não revelado, eram as palavras caladas que o faziam voltar a olhá-la, era exatamente o que ela não dizia o que de verdade importava para ele, e então quando a deixava depois de cada encontro, quando já estava sozinho, dentro dele soava a silenciosa novidade que ela não havia contado...

E não era porque ela não soubesse sobre as variadas formas de amor, e carregasse a certeza de que jamais o amaria, mesmo assim ela o queria, por todo o paradoxo, e porque afinal não houvessem motivos para não querê-lo, ela o quis, sim, com a naturalidade da falta de mistério, e porque ele fosse de uma clareza entediante - para quem as coisas existem sem meio termo e para quem todas as coisas são nomeadas - e porque para ele a vida existisse sem as metáforas - por isso e apesar disso ela o queria...

E não é porque eles não soubessem que tudo termina e que a perfeição mora em uma casa sem chaves e, ao prever que seria por pouco tempo foram capazes, e somente porque eles sabiam que a impossibilidade é possível...

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Da Poesia

Da Poesia I

Uma explicação que provavelmente também se tornará meu próximo assunto...
Ah, manias...de sentir, mania de escrever, de tentar fazer poesia!!!!???
Sei lá como se chama o que tenho escrito nas últimas semanas: texto, prosa, lirismos.

E o Soneto?

Acesso de riso à mais leve menção desta palavra - que escrevo com letra maiúscula - sinônimo de auto flagelo. Minha vida é persegui-lo, pois muito tenho feito em busca do sabor de um soneto. Modo meu de viver a poesia e a vida com olhos de poeta, o que não faz da minha pessoa, absolutamente - ou minimamente – algo próximo a um poeta.

Poesia. Vício que me fere, nave interplanetária, afrodisíaco e remédio para todas as dores. Sofro deste problema: paixão e poesia, tudo ao mesmo tempo, e devo dizer - é incurável, estou pior a cada dia, abusada e sem medida. Não sei como fazer, mas faço, sem pretensões eu tento, um pouco de poesia.

Da Poesia II

Um dia falei para alguém muito intelectual que o problema com a poesia era que “todo mundo” em algum momento da vida - em geral vivendo uma grande dor, de um grande amor sofrendo - se arvorou em ser poeta. Fosse no diário da adolescência ou em cartas de amor ridículas - o sentimento do poeta que gostaríamos de ser vinha à tona para nos dar coragem de conquistar, para nos fazer inspirados e confiantes no poder de seduzir. Não fujo à responsabilidade de ter usado deste artifício e pasmem, que os anos dourados da primeira juventude há muito me deixaram, no entanto, continuo igual. Como disse e repito, viciei, agora já era, estou até o pescoço, e não quero que nada mude, quero escrever alguma coisa que preste, que valha uma passada de olhos, um pacote de amendoim, uma risada canastrona.

Quanto ao episódio do homemenzinho intelectual, que me foi apresentado pela surpreendente amiga Cris Braga, terei que revelar: era um escritor finalizando seu livro. O elemento trajava blazer azul-marinho, falava gravemente e, entre um pigarro e outro que usava como ponto e vírgula, conversamos sobre poesia. Estávamos no escurinho do Tablado e eu, em silêncio, a ouví-lo. O que exatamente conversamos não lembro, falava de política – era um expert – e para resumir, um chato, mas não por culpa da política.

Antes de começar - um lembrete: já disse por aqui que tenho uma marca de nascença, a timidez, esse jeitinho esquisito que provoca reações inesperadas em mim -e nos outros mais ainda. Digo isso porque minha timidez é do tipo reativa e ocorre que na compulsão de não sê-lo, na vontade desesperada de não cair no vácuo, sou capaz de respostas inapropriadas aos estímulos externos. Faço ironias que só a mim completam, só ao meu humor têm sentido. Embalada no álcool, ou a seco, trafego do extremo silêncio ao comentário aguado, da concordância mansa, ao discordar digno das bancas advocatícias. Sou caso a ser estudado. Tropeço nos tapetes das festas, cumprimento desconhecidos com intimidade e desvio os olhos de quem gostaria muitíssimo de encarar - em todos os sentidos. Sou caso perdido.

Voltando ao Sr. Intelecto Enjoado eu estava tranqüila e sem assunto quando o desavisado doutor sabe-tudo, veio com o papo: Poesia. Instigada a falar sobre o tema, minha paixão e minha timidez se misturaram de forma bombástica. Confidenciei a ele, com a voz já em sobressalto, que a poesia como gênero, na minha opinião, era um prazer destinado a poucos, pois poetas, poetas de verdade, podíamos contar nos dedos e me recusava a citar nomes dos famosos falsos poetas que andam por aí...
Cabe aqui ressaltar, que a antipatia pelo recém apresentado foi ingrediente decisivo para a total falta de tato.

- Amigo, disse eu, poetas são poucos, agora vou lhe dizer que existem uns palhaços, sem a menor noção, que se dizem poetas, esses camaradas deveriam ter vergonha, uma gente que não se enxerga. Eu não me permito dizer que faço poesia porque sei o que escrevo. Posso amar a poesia e até me sentir poeta, mas poesia mesmo, que valha a pena, tem uma grande diferença, uma longa distância. A pessoa tem que entender o quanto é difícil, difícil demais. É preciso muita cara de pau para dizer: faço poesia, coisa que não me atrevo!

O mais tenebroso silêncio tomou conta de nós, a peça começou e no intervalo ele foi embora, não sem antes me pedir que desse uma olhada, e uma opinião sincera, sobre as poesias dele, faltava pouco para a edição, apesar do livro ser sobre política.

E assim foi que nós nunca mais nos encontramos.

domingo, 16 de setembro de 2007

Atrevimento Poético

Atrevimento Poético

- Deixa, deixa, a voz me diz...

É a vontade de ser poeta, espécie de loucura inofensiva. E mesmo sabendo das dificuldades, não resisto. É mais forte do que eu! Peço perdão por tal ousadia mais poderosa que a razão. Como já afirmei antes, ser poeta não é para qualquer um, é a pura arte de construir uma estética na forma e na emoção.

É que a vontade de ser poeta me assola, me faz perder o critério. A poesia é vício que se mistura com a minha vontade de ser feliz escrevendo algo que preste. Então confesso, perco a frieza, não consigo retornar ao bom senso da auto crítica, me abandonou a razão sim, e se dela eu guardasse uma gota sequer, esta tentativa de tercetos e quartetos não teria me dominado.

Estou absolutamente vestida, coberta pelo puro linho de uma paixão, a paixão que nos faz cegos, e pior do que cegos, tolos - e muito pior do que tolos - crentes, e mil vezes pior, nos faz incrivelmente fortes sem nenhuma proteção. E por aí vai. Perdoem-me este atrevimento poético que me transforma em um herói. Eu trago meu corpo envolto nesta armadura de linho, tecido de palavras, palavras para tocar, sentir entre as mãos e, assim, assim, eu não escrevo, vou pousando palavras sobre você, próximo ao seu ouvido, no côncavo dos seus ombros,em seu umbigo, e por onde passas eu estendo tapetes.

Sou dependente.
Preciso do olhar enviesado, o ângulo oposto, ficar de cabeça para baixo, quase embriagado, preciso estar do avesso, mas porque a vida parece difícil - e querer a violenta emoção - no real e no presente - se torna perigoso, deixo passar. Ora, porque girar o botão da intensidade me é trabalhoso, e pode ser um erro difícil de tolerar, deixo passar.
Preciso de poesia.

Estou aqui, e sou esta confusão, o emaranhado sob a transparência da roupa, e porque me sinta divinamente protegido, alegre, ansioso, e livre, já não me importo em ser frágil, pois é o que tenho a oferecer, o meu mais obscuro desejo. O meu mais obscuro desejo.

Busco a poesia, repleta do óbvio e da surpresa.
Vou me cobrir com o linho e estarei protegida através da minha evidente nudez. Já não temo a incógnita, e me entristeço só um pouco, e se ás vezes tenho amargos na boca, não há o que fazer, é o labirinto.

Eu paro, me deito pelo caminho, existem paredes, estou sozinha, mas há para mim, ao meu alcance, este céu abarrotado de estrelas.
Então, vou comer uma estrela, e seguir aquela bússola doida que me convence a escrever mais um soneto.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Gossip Live, True Life

Ouvi dizer que aquela pessoa, que você sabe quem, fez aquilo, no ano passado, faltava uma semana para o final de Junho , o Flamengo empatou com o Vasco e foi neste fim de semana que tudo aconteceu, quando o juiz não marcou o pênalti...

Não, não, não...não ouça o que o fulano diz, ele não sabe de nada, não tem erro o que estou te contando, porque tenho intimidade com a tal, que estava junto quando tudo aconteceu e a pessoa - que você sabe quem - me contou, muito minha amiga, nem foi assim como dizem, com tamanha intensidade, o povo não sabe nada desta novela, que conheço a fundo, acompanhei.
Naquele inverno, a gente viajou junto, e rolou um vinho, o frio, vinhos, vinhos, lareira, sabe como é, vida e morte de Lady Di, documentário na Tv, e a agitada vida sentimental alheia sendo discutida por nós, diversos detalhes para comentar, sobre o gosto e a preferência dos outros - e bordados que é melhor ocultar - gafes, excentricidades...a trabalhosa ocupação da falta de assunto...bem falamos da nossa vida também, mas pouco,muito pouco!!!

Porque ela é discreta, muito discreta, discretíssima, não gosta de falar deste assunto, mas eu percebi, percebi tudo, nada me escapa, tenho o olho clínico, já posso até ser dona do bordel!!!

Não sei o que falam por aí mas tudo aconteceu mais ou menos assim, não vou te dar os detalhes, porque seria anti-ético da minha parte, sabe como é, eu prezo esta amizade, mas se você quiser posso te contar alguma coisa só para o seu conhecimento, para não ficar desprevenido, a título de aconselhamento....
Vai devagar, vai devagar, já dizia minha mãe, porque devagar se vai longe...e esta história foi além do esperado, isso foi...como eu sei? Oras, como eu sei, já não te falei que sou íntima dela? E também porque as pessoas falam, a gente deduz, calcula, e a coisa cresceu, foi assim mesmo, não ia ter esta proporção se fosse tudo tão inventado, então, é o que se supõem. Eu sei, com certeza, teve quem gostou e teve quem não gostasse, mas tudo que falo confirmo, mas é quase certo que sim, porque a prima de uma das partes, que também é minha amiga, almoçou com um ex-caso desta pessoa que a gente acha que “tá” rolando esta história, e revelou os detalhes do acontecido...

Então, não tem como estar errado, todo boato nasce de uma língua ferina, uma mentira, uma lente de aumento talvez, tudo bem, mas se todo boato tem um fundo de verdade, a verdade tem várias línguas, toda verdade é relativa, e depende do referencial, já comprovou a Física...e de fato se tudo aconteceu como imagino, tudo acaba sendo quase como disseram, e a pessoa que não vou revelar o nome - você sabe quem - e já notou o jeito, ali não tem como não ser como falaram que foi, muita música, muito riso, quem pode, quem agüenta, concorda? Dou razão, apoio...se foi bom ninguém pode dizer, o depois é um mistério, ela entrou em silêncio, não comenta, faz a linha educaaaada, mas a gente “que tá na pista” sabe, tem experiência, né? Consegue ver além das coisas, por isso...

E no fim tudo é uma grande brincadeira, a verdade tem várias bocas e opiniões...o mundo passa a ter direito autoral sobre a história enquanto a realidade vai sendo esquecida. A realidade - a verdade que ninguém se interessou em saber - só existe dentro de um alguém que nem mesmo merece o crédito.

Como foi, porque foi, quem sentiu, o que restou...
Nada importa quando a vida é uma ciranda de risos, "gossip live, true life" onde mais poderoso que a física, só o boato.
Outro dia me perguntaram: - Quer ouvir uma fofoca engraçada?
- Não, estou sem fome. Obrigada.

domingo, 9 de setembro de 2007

Oito Anos

Oito Anos


Quero me lembrar dos meus oito anos. Quero me transportar para aqueles olhos, para aquele tempo, para aquela consciência de alquimista que só se pode ter aos oito anos. Quando ainda estão por vir os vícios, os assombros, as mágoas que não se retocam. Quero os meus oito anos, um sentido, longe dos arrebatamentos, longe das encruzilhadas, da fúria que há de vir. Saudade tenho daquele tempo que foi tão pouco, tão leve, qualquer idade anterior aos meus oito anos. O que restou daquela bolsa d’água que me alimentava? O que foi feito daquela crença , daquela verdade? O que eu fiz da certeza de ser completo como um anjo de Deus?

Hoje me parece bastante difícil alcançar quem eu era, mas eu era enfim, um anjo bastante fiel, e me agrada pensar que talvez eu ainda esteja sublime como antes. Antes do mundo, antes do conhecimento que se fez necessário, e bem antes das descobertas acidentais. Sim, eu fui um anjo. Um anjo alquimista. Alguém é capaz de entender esta imensidão? E se me perguntarem porque somente aos oito anos se pode ser, experimentar a vida como um alquimista em devaneio, responderei com a voz em contrabaixo - responderei quase mostrando o óbvio, mal escondido entre a poeira e o pó grosso: - É preciso acreditar. Acreditar que o importante não é a vida em si, a mecânica, o fato ou a tragédia. O que vale é saber que a verdade está na infância, naquele tempo em que o mundo é todo seu.

Guardo as relíquias dos primeiros anos. Aquele cheiro da vida, fragrância doce quase impercebida de um jardim farto de sol, calor morno, flores, e zumbidos. Tento resgatar o que existia e ao qual já não consigo nomear. Quero voltar à paz daquele tempo onde tudo respira e é genuíno. Quero abrir os olhos sendo a vida despertando, e deitar os dias a fruir, somente a olhar quem eu amo.
Não tenho asas, não sou anjo, mas um grande amor pelo mundo senti aos oito anos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Quem tem medo do Afeto?

Afeto. Palavra feita para viver. Viver a palavra, comer a palavra com recheio. Recheio doce na medida certa, sem enjoar. É proximidade e conforto. Palavra que só existe quando exercida. O afeto precisa de nós, é matéria viva nas atitudes. Ele está nos pequenos gestos - não é apaixonado e nem pede revoluções - ele grita por compaixão, empatia, calor. Para a maioria das pessoas pode ser complicado pois o afeto é de uma simplicidade difícil de alcançar. Em geral, no rol dos sentimentos, o seu momento de existir costuma passar despercebido - ou é tão fugaz que não damos conta de aproveitar. Pronto. Agora, em algum lugar dentro de nós podemos senti-lo, e como um diamante que nos machuca, fica por lá, a pontada aguda do afeto cristalizado.

E porque não precise de grandes manifestações e rompantes se mistura em gestos  estranhos. Existe o afeto cobrador, que espera para receber de volta e dar o troco.  Tem  um tipo de afeto que quer existir mas não sabe de que modo. Entre tapas e  sarcasmo, fica gozador e descomprometido. É o sentimento na contramão, oculto e fraco, que ainda não descobriu o poder da gentileza. Usa a metáfora da violência porque não sabe como ser humilde, tem pavor da doçura e se sente nu vestido pela delicadeza. 

Sim, ele se sente nu e não sabe desfrutar deste prazer. Ainda não descobriu que o afeto, o afeto de verdade, precisa da nudez. Deve ser como uma erva milagrosa, um remédio para expandir a alma. E expandir o tempo que se mede por aquilo que fizemos das nossas emoções. O afeto faz do tempo um calendário de gestos, o tempo contado pelo imaterial, pela vida construída de pequenas sensações.
Não quero a passagem das horas mas as transformações. O afeto é um delírio.

Estou a criar, a inventar este tempo que me deixa mais forte, a permitir que ele tome conta de mim. O tempo que não me envelhece, e nunca é em vão, porque está carregado da imensa fragilidade chamada afeto.



domingo, 26 de agosto de 2007

O Amor Incomum

O Amor Incomum


"Pudesse eu ser natural e simples, sem grandes pensamentos, sem pensamento nehum, para deixar a vida fluir como um rio que sabe ser continuo.
Pudesse eu ser como certas criaturas onde o pensamento não se demora, não se aloja, somente vive pela sorte de cinco míseros segundos, e rapidamente se derrama sobre a a realidade.

Os meus pensamentos existem quando escrevo. Por isso escrevo. Para curar a ressaca desta timidez cármica. Escrevo para entender a vida pela sedução da palavra. Subitamente quero escrever uma carta de amor. Uma carta de amor, eu te daria - de amor nenhum - mas do amor incomum feito de intenções onde eu não te diria coisas, estas coisas que todo mundo diz, mas te faria sentir a vida que está do outro lado da vida. Uma carta do amor incomum onde não te descreveria nos detalhes, corpo, cabelos, olhos, eu te daria um gosto, uma palavra nascida no céu da boca, um gosto acre-doce, misturado, a leveza ardente do tabasco. Quem me dera ter o talento de escrever uma frase que traduzisse não só a ti, mas a tua linda complexidade, não só a tua beleza, mas a tua força.

Pudesse eu te traduzir em frases, elas seriam simples, repletas de balanço, múltiplos significados e te trariam a certeza de que é para você que escrevo pois as palavras têm a mágica de se revelar. De me revelar. Porque entre as palavras estou mais presente, firme e diferente daqueles momentos em que só me ocorre o silêncio. Elas te explicariam aquilo que não sei, que me falta coragem de ser feliz na vida.

Uma carta de amor incomum eu faço agora no instante que me lês e nela coloco o mistério meu e teu coberto por palavras que ainda não soubemos decifrar. E neste momento, saiba que se trata de você, somente você, este mar de águas profundas, onde quero mergulhar."

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

José Maria José

José Maria José

Nascera com vocação para personagem.

E desde cedo, sob os holofotes do berçário, se destacara dentre tantos recém nascidos. O chorinho ritmado, a beleza natural que se mantinha interessante, mesmo quando dormia, conqusitava a atenção dos visitantes. Na mais tenra idade já pôde sentir a fonte do talento a se derramar sobre sua cabeça e, embalado por uma certeza interna, o carisma prematuramente já se manifestava. José Maria, era o bebê.

Tudo acontecia como em um filme onde ele se portava tal qual um veterano que sempre sabe o que fazer - desenhar, comer, chorar - sem nunca perder a deixa.

Não havia quem desse mais brilho ao que se supõe corriqueiro. Não subia em árvores, era o Tarzan. Polícia e ladrão, imbatível - ora do bem, ora do mal. Tropeçava ao pular corda, por certo era desengonçado, no entanto, as marcas espalhadas pelas pernas, os tombos - porque não dizer vexames - cobriam seu rosto com lágrimas sentidas - de modo que até o fracasso lhe caia bem.

Ninguém sabe dizer o motivo, o fato é que José Maria, do dia para a noite, virou Zé. Ele jamais contestou,pois pulsava mais forte o talento e o desejo de ser um bom personagem. Acostumou-se. Contudo, não seria mero figurante de uma vidinha tão sem propósito, afinal sua persona nunca o deixava na mão.Trazia a vida na ponta da língua como se fora um velho texto ao qual a memória feroz resgatara. Sem improviso.

Zé Maria borbulhava de orgulho, ao ouvir o próprio nome, escolhido por sua mãe. Não que ela fosse perfeita mas cumprira o papel de personagem-mãe a contento, não decepcionou, deu ao filho este patrimônio, o nome composto. Nosso esforçado amigo, já adulto, resolveu procurar uma numeróloga, em busca de confirmar o destino. Bobagem, Zé! Acaso não sabe que o destino não emite nota fiscal?

E veio então a revelação da numeróloga ruiva: Zé aproveitava mal seu potencial, era personagem restrito em suas concepções, não utilizava o poder do nome composto, que correto ou inverso, serviria a dois patrões. Maria José, José Maria, ora bolas, tanto faz - lhe explicou a estudiosa - possuia muitos pontos a se explorar, energeticamente falando... era preciso um texto original, de preferência inédito, pois que esse negócio de interpretação era pouco para tantos personagens contidos naquele nome.

- José, Maria José, Maria – sentenciou a mulher diante de um Zé estarrecido - põe ímpeto nesta vontade, se vira, vê se vira autor!!!

José Maria, sem conseguir encontrar o tom do momento, sentia uma insurreição escandalosa, náuseas, e todo o seu método de cultivar o personagem escoando pelo ralo. Na verdade, também ele, se cansara das mesmas velhas histórias.

Um motim lhe fazia tumulto pelo corpo, barulho de canhões, enfrentamentos, batalhas duríssimas.José Maria, ou qualquer nome que o valha, já não se importava, saiu pela rua, onde tudo parecia estranho - ele mesmo não se reconhecia, apenas percorria o caminho para casa.
O suor lhe gotejava a testa.
Através da janela a paisagem era imaginária.
Fechou as cortinas. Sentou-se. As mãos pousadas sobre o teclado.
O olhar novamente se perdeu, foi parar em outras terras,sem rumo, tomado pelo mais quixotesco de todos os personagens: o Autor.
(...)
Tudo em branco.Histórias, vidas para criar.
(...)
Onde foi parar todo mundo? Sei lá.
(...)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Ser Normal...

Ser Normal...

O que é ser normal?

Pergunta difícil de responder. Ser clinicamente normal é raro, de acordo com um médico paulista que realiza uma pesquisa com remédios usados em distúrbios psiquiátricos. A maioria das pessoas tem em seu histórico algum fato neurótico, achaques, bipolaridade, depressão. Normal.

Esta entrevista me trouxe certo consolo, devo admitir, mas não quero falar da formalidade, da teoria das coisas.
Quero dizer o que é ser normal...assim mesmo com reticências.
Ser normal é ser a gente mesmo.
É poder, é ter o direito de ser único. É ser o que quiser. Ser normal é buscar um caminho próprio de amar, de viver, de pensar e não desistir, para que o mundo não nos transforme nos outros. No rebanho, seja lá do que for, ainda sim, rebanho.

Porque a vida não é uma constante, uma linha reta que liga dois pontos, a vida é um Labirinto que nos é dado - complicado, delicioso, sem saída - feito de compartimentos para se perder e se achar. Feito de pedras, muros, mares e tantos lugares indescritíveis - cantos - cheios de solidão. A vida é Labirinto onde o terrível Minotauro é o julgamento e, a normalidade social - aquela que vive na linha reta - é de uma loucura anestésica.
Ser normal é sentir a nossa própria coerência: certa, louca, incoerente. Nossa.
Ser normal é estar perdido, e dar gritos, mas saber que em meio a tantos caminhos há sempre um atalho.O Labirinto,a vida em forma de possibilidades.

Entremos.

Superfícies, espaços, curvas – subterrâneos - e ninguém se engane pois que em alguma cavidade há de encontrar o sofrimento e o labirinto se torna confuso, por vezes claustrofóbico. Precisamos de uma bússola com sua lógica inventada, capaz de todos os rumos, confiemos então nas idéias, e que nos fortaleça a intuição.

E acredite que no Labirinto também há jardins...jardins suspensos...
Construo, cuido, e lá vou ter com meus amigos, onde mora a beleza e o prazer, onde me alimento do que me é único e me deixo estar, respiro, descanso meus olhos. O lugar que é profundo, próximo, onde sinto toda a espécie de novidade, e percebo o desconhecido, alguém que me leva pela mão e diz: - Vem!!!
Eu vou, eu gosto, crio, eu existo.
Sou Senhor do Labirinto.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A Saga do Chiclete

A saga do chiclete

Recebi este relato na qualidade de conselheira da S.O.S. Logo percebi se tratar de um caso curioso. Para quem está chegando agora, visando um melhor entendimento, aconselho a leitura do arquivo anterior, deste blog.

Uma das diretrizes da S.O.S é a crença nas forças da natureza e na existência de outros universos sendo importante ressaltar que mantemos especial admiração pelo planeta Vênus. Sabe-se, comprovadamente, que os venusianos caracterizam-se pelo sentimento, são gentis, amorosos, não se definem como masculino e feminino, se transmutam de acordo com a emoção e praticam com excelência a abdução. Considerando que somos os irmãos primitivos, a abdução pouco explorada por aqui, e corriqueira por lá, faz de nós objeto de estudo genealógico. Os habitantes deste astro brilhante têm o único objetivo de nos enriquecer, passar adiante conhecimento nas artes, na filosofia, no pensamento, e no bem viver. Entre nós muitos homens, como Galileu, foram inspirados por Vênus, e beneficiados pela abdução, o que torna bastante claro também o exemplo de Aristóteles, para quem o mundo se ampliou e, com lampejos de genialidade, criou toda sua lógica, silogismo, o pensamento calcado na sensação inefável de um pós-abduzido.

Isto posto, é fácil concluir que os vizinhos, irmãos interplanetários, não nos querem mal. A abdução é um ato transformador e saudável: o que está errado acerta, o quebrado conserta, expande as idéias e nos envolve em um aroma peculiar – encantador - posso dizer...não, não posso dizer, só quem viveu sabe. A questão é que, na maioria das vezes, não estamos preparados para a experiência da liberdade, isto sim nos dói até o último fio de cabelo. Temos um sentimento extremamente humano, o medo do novo, o que significa revelar por fim e a tempo: as emoções nos assustam.

Mas como toda essa história cabe em um chiclete? Vou explicar. Tudo está interligado, S.O. S, Vênus, a abdução, o ovo, etc, etc...estamos todos dentro de um contexto. Deste modo devo esclarecer que um dom ovíparo é a empatia, ou seja, ao ouvir o relato presenciei o momento e vivi todas as sutilezas deste acontecimento porque, acima de tudo, a sutileza é uma qualidade ovípara!!!

A missão do viajante das galáxias, recém chegado por estas terras, era conhecer os homens, no entanto, a abdução não se daria por mera futilidade, não, só se realizaria como ferramenta para desvendar mistérios.
Pois bem, acontece que a abdução não chegou a termo por culpa de um chiclete, o que a princípio não seria problema para aqueles que são os mestres dos mestres em fluir no movimento. Por outro lado, nosso amigo de Vênus, preparado para todo tipo de obstáculo, foi subitamente impedido pelo improvável. De tanto se sentir humano, de fato humano se tornou e naquele instante, na ante sala da abdução, havia um chiclete sendo distraidamente mascado. O que nosso herói não contava é com o humor, ao invés de abduzir começou a rir. Por quê? Eu não sei, ele não sabia. E, na verdade, isto pouco importava...

E àquela que me contou a história expliquei: para um venusiano o humor foi um sentimento poderoso, e como não bastasse havia também uma tal alegria, havia o riso, havia aquela Estrela da manhã, vista da terra, descortinando o dia...

E o chiclete, ela perguntou? Bem, querida, fica tranqüila, ele ainda tem a missão de resgatá-lo.

S.O.S : Sociedade Ovípara Secreta

Os fundamentos desta sociedade, a qual teve início nos primórdios da civilização Ocidental, encontram-se no matriarcado, no culto ao amor e ao feminino. Vida, célula, núcleo, liberdade. Tudo isso faz parte de um conceito onde o ovo, símbolo absoluto, se destaca pela simplicidade e perfeição. Assim, a escolha desta sigla não foi aleatória, o nome se tornou um código entre os participantes, código este que pode ser identificado no nosso cotidiano, nas tarefas banais, em uma breve conversa na fila do banco.

A quem me lê – e percebe esta explicação pouco lúdica, qualquer coisa burguesa, quase enfadonha – posso garantir se tratar de uma filosofia maior, que nada tem de tacanha. O fato é que me faltam palavras - ainda estou engatinhando na arte de ser ovíparo, e ser ovíparo é não precisar de palavras. Sim, sou apenas uma iniciada e muito tenho a aprender. Qualquer pessoa pode participar deste grupo, independente de sexo, raça, religião, pois não se trata de feminino ou masculino, e não há grandes teorias a se explicar, é muito mais um modo de ser.

Começo, pouco a pouco - a experimentar – sentir a oviparidade. Ainda estou neste degrau. Quando penso no ovíparo que me tornarei, é claro me lembro das aves, do ovo, penso nas galinhas com aquela desenvoltura simplória, trabalhadeira, algo alienada, poedeira e histérica. Beleza despercebida. Então, a convicção nesta filosofia se torna maior, tendo em vista a comprovação que mesmo ali, no alvoroço do galinheiro, o mundo está completo e harmônico. Estou eu aqui, a divagar, mas feliz posso dizer que a divagação é um exercício extremamente ovíparo. O extremo é ovíparo! – e pode ser complexo compreender - já que a sutileza também é a uma jóia ovípara. Chegarei lá...

De uma ponta à outra, retomo o fio desta meada, no que diz respeito aos primórdios da SOS. Relata a história não oficial - baseada em transcrições secretíssimas de documentos raros – que na Grécia Antiga vários pensadores e filósofos eram membros desta sociedade. Um deles, em especial, foi Ovídio, o grande poeta, rebelde e apaixonado. A ele toda SOS rende homenagem, e entre os mais ortodoxos, é visto como um mártir.

Ovídio foi o mestre dos mestres, e não foi o acaso. Representou a linhagem da beleza, da humanidade, deu ao mundo o modo de ser ovíparo. Fez seguidores como Shakespeare e todos aqueles poetas que não fazem apenas literatura - saltam, vão além - vivem a métrica sem retalhos e, acima de tudo, a sonoridade, a música perfeita que faz a poesia que não está nos versos, guarda a poesia que está na vida.

Sob encomenda ou o beijo que queria dar

Para Ananda que me sugeriu o tema e fez várias contribuições fundamentais ao texto, obrigada pela inspiração


“...os pares, se encontram, assim do modo que deve ser, naturalmente acontece porque para o sonho, quando você o deseja muito, todo o universo conspira, conspira no gesto, no gosto, na falta de lógica, conspira no beijo...
...o silêncio, o sentir do prenuncio - a pré morte – diante da aproximação de alguém, respiração, lenta como um vento quente da tarde que paralisa o corpo, a chegar tomando conta do espaço. E não há mais espaços, o que há, o que posso ver na curta distância que alcanço, onde meus olhos focam, são quadros, são as partes, lábios, reentrâncias, detalhes, me esperam, e que eu teimo em dizer me esperam, mas seria ingênuo qualquer ato da razão quando se sabe que não há tempo, não há esperança, o que há é a certeza de que os pensamentos atrapalham e os beijos se atraem...
...o som alto, as luzes, o ar quente da tarde, a multidão me engole mas sei que vou encontrá-lo aquele a quem hoje devotarei o resto do dia, são quatro horas da tarde, abafado, poeira, mas sei que vou encontrá-lo pois não existe lógica quando os pares se atraem...
...a noite continua quente, o céu negro, lua esfumaçada, quero fumar um cigarro, acende um, me passa, te olho entre a fumaça, e como me arrebata, tudo o que fazes sem querer, a espontaneidade tua me traz o silêncio, e essa música então, me faz camaleão, ausente, com meus pensamentos, me concentro mais em ti, me preencho, porque afinal só os corpos se atraem (penso no Manuel, velho poeta, quantas vezes me salvou)

“- As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”...

..vem, vem meu bem porque o meu colo te espera, quero perder este foco, da boca e da curva do teu queixo, dos pequenos nódulos da tua garganta e com todas as partes que não vejo vou construir um beijo, penso que a emoção também é uma forma de arte quanta coisa abstrata crio, quero essa arte agora quando te vejo, eu não te vejo, eu te beijo, e já não é mais o mesmo, é esta conjunção de pedaços que fazem espécie de arte que crio enquanto te beijo, porque eu não te beijo simplesmente, como quem faz uma rotina de todo dia, não são duas bocas que se tocam, se te beijo te esquadrinho, te descubro, te invento, não te beijo como quem dorme e acorda e acorda e sonha que sonhou mas nem sabe...porque eu não te beijo com a boca, eu te beijo é com o corpo inteiro!

domingo, 12 de agosto de 2007

SOBRE ANJOS

Restabelecimento. Devo dizer a todos que morri um pouco por esses dias e ainda estou renascendo. Tempos de resguardo e fragilidade. Morri um pouco na madrugada, morri um pouco ao meio dia, às quatro horas da tarde, o sol me deixava cega, o ar estava parado, eram quatro horas da tarde e eu já não me pertencia.

Quero flores, orquídeas, lilases, cenários e perfume, perfume para acordar a vida, acordar desta morte, da solidão grotesca que me roubou um pedaço da alma e me respirou a vida.

É que um anjo de ternura e tormento visitou-me na madrugada. Quando ele me encontrou eu estava distraída porque era outono e alta madrugada, o ar mais frio e a noite brilhante me trouxeram a falsa impressão de estar protegida. Quisera eu ter na minha natureza uma seriedade magistrada, uma frieza científica feita de lógica, dedução e método. Meu Deus, quando vou aprender a carregar a razão a tiracolo?
Mas não. Achei graça, dei asas ao anjo - sorri, o sorriso dos olhos, contei as melhores histórias - permiti que ele se aproximasse: incerteza, céu e inferno, homem, mulher, inocência e crueldade. Desejei estar ali e atravessar a noite entre suas asas, leves, grandes, afiadas...

Ele respirou em mim, soprou em minha boca aquelas palavras estranhas, e ainda que me seja proibido tocar em anjos, ele me tomou o ar, e ficou no lugar, sem que eu me desse conta, uma solidão carnívora. E de tal maneira se alojou entre as minhas costelas, na minha traquéia, me deixou sem fala, fez doer o meio do peito, me tirou as forças e criou uma dor sombria. Porque eu deixei e porque estivesse desatenta, me perdi de mim e restou apenas uma solidão dentada.

Custa a sarar o rasgo entre as costelas, a dor incômoda próxima às axilas, por onde minha alma fugiu e foi passear por aí.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

QUATRO DE JANEIRO DE DOIS MIL E SETE

Quatro de janeiro de dois mil e sete. Não vou escrever números, só palavras. Palavra, palavra-som, cheia de um inenarrável significado, palavra música clássica, incidental e inconsciente. Poesia.aiseoP PoesiA.AiseoP.Poesia.

Escrevo as palavras com a voracidade de quem procura algo acima de, na profundidade, abaixo de, na escuridão maior, na tangente. É um jogo entre nós, a palavra nunca me alcança, porque eu preciso daquilo que não é, do que passa no acostamento, eu preciso do não significado. Eu preciso da palavra viva.
Procurar, procurar, verbo cheio de angustia e possibilidade...

Conheci uma vez um homem que era procurador de tesouros, quisera eu ser como ele ter o olhar distante, a pele queimada, pescador de histórias e do silêncio imortal do mar. Não quero objetos. Vou procurar a simplicidade, esta pequena pérola perdida.

Estou escrevendo o ano de dois mil e sete. Já ancorei nele. Começa a expedição.
Quisera eu acordar diferente no ano que começa. Alguém melhor do que até hoje fui e sem esta confusão de ser. Quisera estar resolvida. Ter esvaziado a bolsa dos velhos papeis, contas pagas, frases, o amor que não pediram, os mal entendidos e nas reticências colocar ponto final. Quisera eu não ter sentimentos maiores do que posso suportar, tê-los corretos acerca de, acerca do, baseado em, ser mais adequada a respeito de todas as decisões e que isso me trouxesse uma fleumática sensatez.

Quisera eu que o novo ano me limpasse o alvoroço da alma, o modo insensato de gostar e me trouxesse uma esperança em gotas, diariamente, para que ela nunca me faltasse e fosse me revirando as cismas e me levasse os recalques e fosse me curando devagarinho as tristezas, pois até mesmo das tristezas a gente pode sentir falta.

- Chega logo Ano Bom e me livra dos extremos, diz abra-te sésamo, para que eu possa entrar, me faça ser previsível e lógica, sem desatinos e insônias, e me dá novos olhos para enxergar o mundo que meu teimoso coração não quer.

Que eu tenha menos atitudes, mais lentidão e mais verdade, sem as enormes agitações do espírito. Sou paciente, é certo, mas tem um mar profundo em mim, um lugar onde minha respiração não alcança, onde ouço trombetas, onde o meu desejo mais recôndito é temer os mistérios e ao mesmo tempo desejá-los.

Vem dois mil e sete não estou presa a nenhum fado, penso, faço, sinto, mudo, no entanto, dentro de mim ainda mora um desespero oculto - dores que chorei e não passam - por isso mesmo viver não deve ser um ato medíocre, quero estar dentro da vida para que ela me viva, quero a vida como ela me quer: de todos as maneiras. Deixo que ela venha para aceitá-la complexa, finda e sobrenatural.
Dá-me tudo isso porque estou pronta, mas dá-me sobretudo um coração bondoso e compassivo onde as vidas possam encontrar abrigo.