sexta-feira, 27 de março de 2009

Dia Vinte e Nove

Dia Vinte e Nove de Março de dois mil e nove
Poderia ser uma data para lembrar
Que uma data pode ter a gente dentro
E guardar uma história

Contudo Dia Vinte e Nove

será um dia comum para comer nhoque
Da sorte em alguma cantina do bairro de Copacabana

Com sabedoria astral Cristina Braga http://www.espacorubi.wordpress.com/ me contou
Que o novo ano astrológico começou dia Vinte de Março
E eu que não entendo nada de nada

Só posso dizer que sim,
Minha vida mudou e não compreendo
O momento presente que ainda está por acontecer
A vida está em recesso, a esperar pelo nhoque da fortuna

No dia Vinte e Nove de Março
O Outono,
O Outono
Sopra no rosto
Vou abrir um vinho ouvir jazz acender velas
E tomara possa sorrir
Enquanto espero pelo nhoque que ainda não comi

terça-feira, 24 de março de 2009

Sem Eu

Hoje quem vai falar é alguém que não tem nome.
Tudo bem sou eu. Mas sou eu que não sabe ser tão comportado, um ser sem remédio e manual de instruções. Sou eu do lado da costura, do alinhavo.
Existe sim, e está vivo um alguém que não sou, e me perturba, me chateia, me azucrina. Ele vem de uma daquelas casas remotas do meu mapa astral confuso. Irreverente, audacioso, sem medida, vive a se misturar com o que há de mais indomável em mim. Faz arruaça na ordem, no silêncio. Grita. Ele gosta do porão astral das casas do meu zodíaco. Tenho paixão por ele - devo confessar - com aquele jeito sem medo, que me diz: - o que é que há Cristiane, o que é que há...
Sim, ele gosta de repetir as frases e me chamar de Cristiane, para não me deixar na dúvida, de que é a minha vez de entrar em cena, e  para me acordar da letargia da vida bem acabada. Ele não tem um pingo de paciência, ele não tem nenhuma decência.
O meu não-eu é simples. O meu não-eu não tem histórias, tem atitudes. Vivo, cético, abusado. Ora feliz, ora colérico.  Anda a bagunçar tudo em volta, a fazer redemoinhos no meu estômago, a me incomodar - querendo minha voz em tom mais alto.
O meu não-eu não é educado. Está com raiva. Anda a revirar mesas e a quebrar vidros, os objetos frágeis dentro mim. Destrambelhado e arredio, passa muito tempo a me desarrumar. É ele quem não gosta de ponto final nas frases, tem horror às vírgulas, e tem enjoos com as reticências - estas, nem em pensamento. O ponto e vírgula acha charmoso porque quase ninguém sabe usar, pontuação com um quê de incógnita. Sim, ele gosta dos mistérios, mas não apenas para apreciar, é para mergulhar, mergulhar, até o fim. Até dizer chega.
O meu não-eu não se intimida, a vida é uma farsa sem mentiras, uma brincadeira séria e sem remorsos. O meu não-eu me ama e quer tomar conta de mim. E eu até que deixo às vezes, e logo depois me arrependo. Ele me diz para não ter medo. Que eu seja como ele: valente, sem mágoa, sem ilusão.
Serei.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Trivial Sem Luxo

Trocar as "Cartas de Amor Ridículas" por memorandos, os recados cifrados com afeto por "posts eficazes", limpar a mente - e nunca mais cair na esparrela de: debruçar em pensamentos desconstruidos de amor, desejar e sentir, apenas tocar a vida, como quem leva a boiada ao seu destino.


Trocar a poesia por relatórios e a prosa por planilhas que resolvem a vida sem deixar sobras, organizar para não mais pensar no lugar onde vou, quando não estou por aqui, aquele meu lugar nenhum que construí.
Nunca mais pensar no que não se pode ter, nunca mais pensar o quanto a falta de ar faz bem e, ironicamente, esperar ansiosa aquele susto ao te encontrar. A novidade de te ver.
Nenhuma catarse apenas auditorias. Balancear, equilibrar, amor sem necessidade, paixão sem desatino, a vida pendurada no quadro de avisos.


Então, decidir. Tocar a vida assim: sem música, nenhuma trilha sonora, sem reviravolta ou coragem, - sem Carlos, Manoel, William, Adelia, Cecilia, Clarice - sem sonhos, sem graças. É viver como se mil vidas tivesse, somente a ocupar-se - por ora, e por enquanto,a vida de verdade se finge, enquanto adormece, enquanto esquece...








segunda-feira, 16 de março de 2009

Saudade Declamada

Falta, falta você nas coisas, no mínimo gosto, nas migalhas do dia, no meu sono profundo que virou pesadelo porque falta você quando acordo e durmo e nada é o que deveria ser porque falta você no meio do dia, na alta rotina das coisas mais frias e naquelas que perderam o calor, nos prazeres simples, no café muito quente e andando na praia, que falta você faz na madrugada quando me faz rir daquela piada que só eu percebi.
Ah, e no meu silêncio,no meu silêncio naquelas pausas, você faz muita falta.

Porque falta você um dia após o outro, no calendário, nas minhas insônias, na falta de graça que vejo em todas as coisas, na ausência de assunto, no pensamento sem cor, nas minhas palavras tão burocráticas, sem brilho, que outrora gostei de falar.

Falta você.


Na sexta-feira, no sábado, nos feriados - no domingo nem tanto - mas na segunda-feira falta você nas lembranças do que não vivi e depois vem a terça e me surpreendo, porque na quarta você também não está. 


Na quinta tento esquecer.

É só na minha saudade,
Ah, na minha saudade inteira, você está demais.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Espinho Tarquicardíaco

Para todo mal o remédio correto.

No entanto existe um mal tão meu feito de tormento e ternura,
que para ele resta somente a dor, sem cura:

- Viagens de ônibus pela cidade, calor, paisagens a correr pela janela

O motorista é uma moça que dirige com muita calma
e pega e paga e dá o troco e seriamente,
seriamente,
como prevê a conduta dos estatutos sem olhar para os lados

faz ela que deve ser feito,
tudo,
sem olhar para mim

Um senhor, nem tão velho quanto parece
tropeça no canteiro, lá do outro lado dar rua, e vai ao chao,

vai ao chão,
enquanto o bairro inteiro passa e desvia
ele vai ao chão e humilhado disfarça
a fingir que não foi nada
tão grave quanto parece

Mas quando peço a parada na Praça
à profissional motorista
atende ela gentil e ainda sorri,

ela sorri,
como a dizer que o mal não é tão grande assim
O mundo não está contra mim


O mundo não está contra mim
apenas me dói, este espinho taquicardíaco,
feito de ternura e tormento


segunda-feira, 9 de março de 2009

He Wishes For The Clothes Of Heaven

Tivesse eu panos bordados do céu
Fiados com ouro e luz prateada
O azul e o obscuro e a escuridão das vestes
Da noite, a claridade e a meia luz,
Eu espalharia os tecidos sob teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Estendi meus sonhos aos teus pés;
Caminha suavemente porque pisas nos meus sonhos
(Yeats)

terça-feira, 3 de março de 2009

Aqui e Agora

Queria te convidar para ir ao teatro
terça ou quarta,
e ver Pirandello com cinquenta por cento
de desconto, na promoção do O Globo

Vou ser feliz só por depois lembrar
da minha mão distraída no teu braço
antes de um comentário sobre a peça

e o sorriso do teu olho,
o teu humor pragmático

no escuro do teatro

Depois te chamaria para ir ao Oliveira
comer dois cachorros quentes
com todo molho do mundo
caindo pelos cantos

a batata palha crocante 
e o guaraná Antártica, sem ser diet, 
super gelado

Nada de alcool neste dia
para que não se estrague da vida
o que somente nós construimos,
o singelo momento,

e aquele indescritível silêncio
antes de voltarmos para casa
fechar os olhos,
como quem já sonhou antes de dormir