segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Fragmentos da Historia

..eu não penso em sexo, faz tempo deixei de pensar.
Pois bem, devo falar a verdade. Somente o destemor da verdade vale a pena.
Sexo é mito. Mito a ser incorporado. O que faço todos os dias.
Sexo é um mito a ser bebido no café da manhã. Misturado ao leite, colocado no chá.
Agora, neste momento em que a gente conversa, quero dizer que o mito nos serve de símbolo e vaga lembrança - fica congelado - está na realidade à espera da vida. Atavismo.

Quando nos encontramos para o cappuccino do fim da tarde, um pouco de espuma no canto da boca te retrata - e ao teu jeito muito peculiar de olhar ao longe. Chamo teu nome, chamo por dentro. Atavismo, mito, recordação do que ainda vai acontecer.

Os mitos de cada herói o definem. Devemos ser os heróis de nós mesmos e nos salvar a todo instante. E viver o mito do sexo que repousa na mão sobre as minhas costas - quando te encontro no acaso do dia - e com o pensamento ausente, sem o teu corpo, o mito clama pela vida.

Sexo é detalhe. Ou de uma outra maneira pode ser o todo - com todas as partes.
Sexo é somente um dos detalhes que te compõem. Penso o todo e você a parte. Não consigo lembrar do teu corpo. O esforço de lembrar me cansa.
Não revelo a outros, nem mesmo entre fieis amigas nas noites de vinho e confissões picantes, não revelo o que não tenho para comentar. Aliás, confissões picantes em geral me parecem fantasia, porque lembrar é uma forma correta de mentir.

De modo que, não te ressintas da verdade, mais minha do que tua: não lembro do teu corpo.
Não lembrar é um elogio que te faço, acredite. O corpo é invenção de quem precisa do limite. A infantil invenção do corpo deu nesta história moderna e previsível de encontros, verdades que aprisionam, vontades que enlouquecem, obrigações de sentimentos. Pasteurização.
O corpo, a nossa maior prisão.
O corpo subverte o sentir. O corpo, como o concebemos, traça a mecânica do desejo. Então, não lembrar é poderoso.

Deixa apenas as impressões.
A impressão é como um quebra-cabeça sempre incompleto, ou que se mostra na medida que nos ocupamos dele, e se completa apenas por uns minutos, aqueles minutos em que posso te ver.

Sexo é rótulo.
E rótulo me desgasta. Eu arranco, rasgo. Desprezo.
Rótulo nenhum me prende. Rótulo nenhum me define.
O amor eu jogo fora, o amor que não é meu. Este amor asséptico, não.
Quero o amor, meu amor subversivo absoluto, anárquico leal, sem pronome e propriedade.
Amor meu, que me faça ver nos teus olhos a cor dos meus.

Eu não quero ser tua. Eu quero ser minha e que tu sejas teu. Quem sabe te alcanço um dia, nestes dias tão iguais, e em uma manhã banal eu descubra - como verdadeiramente és e nem mesmo tu sabias – e no silêncio que se fará, vou te beijar sim, sem nenhum desejo, eu vou te beijar sim, como nunca antes percebeste - neste modo de beijar tão puro e arrebatador da falta de desejo.

Nesta manhã de sol ainda que qualquer coisa fria - eu, em camisa de malha branca, em calça de pijama, o café me embaça os olhos enquanto eu sopro a fumaça entre nós, entre nós o ar perfumado.

Súbito, te beijei no frio Domingo, te beijei na normalidade do feriado. Acabou-se o mito, começa a vida, no mais erótico atavismo. De olhos abertos te beijei com a falta de motivo que rondava a manhã, quando sou então um pouco tua e tu és um pouco meu. Eu estou brilhando, e não me importa o corpo e nenhuma certeza sobre coisa alguma. O que posso querer além do sentido concreto que nasce quando te olho, quando me vejo? Presta atenção me escuta: não preciso de um corpo.

O sexo é um mito como o corpo que me limita o sentir. O corpo é um limite mais repressor do que a confissão católica. O corpo é o depositário de todas as confissões feitas, de todas as declarações sussurradas com angústia.
Deus, me livra do corpo, do corpo tecnocrata.
O divino me humaniza. Deus não tem corpo.
Estou no breve momento em que toco sua nuca na manhã fria. Entre uma golada e outra de café, embalada pela rotina estou, sem nenhuma conversa para ter. A dádiva de não se ter nada a dizer. A plenitude de não precisar falar.
Pouso minha mão sobre a sua, e isto nada representa.
Sento ao seu lado.
Súbito, te beijo na fria manhã, te beijo na normalidade do feriado.
É nos seus olhos que vejo minhas pernas entrelaçadas no seu pescoço e sinto as mãos tão obviamente masculinas nas minhas ancas, entre o vão dos meus ossos seus dedos. Um corpo deixa sim rastros na minha boca, deixa certas impressões na minha língua.
O café muito quente me aquece enquanto folheio o jornal.
E acontece o que acontece misturado ao pão quente de Domingo. No momento em que te beijei sem nenhum desejo.
Não queira me entender, ou se o fizer que seja sem aflições.
Um pouco de desconserto é sempre bem vindo.
Eu estou nas pequenas coisas e não tenha medo de nada porque tudo nos é permitido.
Peço que não tenha medo. A recriação de si mesmo não é tarefa fácil para quem é o próprio algoz e carcereiro. Estar vivo pode ser desconfortável.
Não é fácil. Para quem ousou não precisar nem do corpo. Para quem se desobrigou, o mundo quer o castigo.
O que sinto é o incômodo de ter que...
Não quero ter que...
Quero deixar de,
De ter que...
Agora vou parar um pouco.

Escrevo para que saibas, nesta declaração tão íntima que faço, que nem mesmo sei o porque das coisas.
Faço com esperança de que me dê as respostas para o que ainda não foi perguntado.
O que é meu eu te dou, esta espécie de sensação sem atos, que quando eu te beijo, beijo, beijo, a curva do teu braço, a cavidade do teu umbigo.
O absoluto sem palavras e fora do lugar comum.

Não vê que isto, o modo como eu te quero,
é o precioso amor que te darei?

sábado, 13 de novembro de 2010

O Que Fazer Do Amor

quando não há mais nada a fazer
do amor que não se revela
é certo apenas esquecer, e seguir
e de modo algum dizer aquilo que se gostaria,
pois o que são as palavras diante do dissabor?


quando não há mais nada a fazer
do amor que fazia promessas
é certo a despedida, 
pegar a bolsa 
a realidade, e sair 
para curar o que restou:
a boca seca, o corpo dolorido,o olho molhado


quando não há mais nada a fazer
do amor mal resolvido
a atitude melhor é não ter atitude alguma
deixar que vida pela vida siga 
por dentro de nós
como a vela e o vento
livre, indômita, natural 


quando não há mais nada a fazer
do amor que poderia ter sido e não foi,
não foi,
muito além de um furtivo encontro,
é certo ter a crença de que amei o bastante
o intenso
o profundo
o louco e puro 
amor revolucionário
como quem adora e necessita
estar na vida sem temor e sem mentiras


quando não há mais nada a fazer do amor
que amor imenso não sentia, e quando o desejo
é a faca amolada cortando a pele fina
eu me permito somente dizer
que este amor que não é amor
me deixou um pouco mais fria


quando não há mais nada a fazer
maior para a vida é a verdade 
mais honroso é o silêncio

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Lembranças do Tema Livre Ficção a Seu Critério

Canção do Amor Criança
Um amor gentil e generoso criei
Sonhei enquanto dormia
Que em um lugar desconhecido
O gentil amor era clareira enorme
E na fechada selva alimentava a terra sombria
Gentil, o Amor, que nada sabe do desencanto
Crescia
E imaginando o belo, verdadeiro, simples
Soltei sem medo às feras da mata escura
Soltei, querendo quem me sorria,
Deixei-o a ouvir cânticos quiçá de outras vidas
Enquanto a sorrir também um anjo de suave doçura
Seduzia
O inocente amor que não sabia ser errante

Acordada fiquei no sereno
Sem atentar que o prematuro amor necessitava vigília
A duvidar que o mundo fosse mau e pequeno
Posto que não sabe ser, o Amor, nada além de gentil...
Volta, volta a dormir meu pequeno, vem...
Que não o quero triste
Volta a dormir criança, sossega,
Até que a Estrela da Manhã apareça...


The Garden
Vamos, meu amor, não esbanjemos o tempo
Ainda que seja doce e distraído o passar das horas
E nas horas que passam sem temor ao Acaso
Sejamos o Agora na distância do medo pousado
Deixa nos levar o Presente
Do Hoje façamos breve aliado
Para vivermos a lenta morte, o Amor
Esta glória que de tudo nos ausenta
E lembremos ser mil vezes mil maior a sorte
Se esta própria morte ao corpo contenta


Vamos, meu amor, não esbanjemos o tempo
Ainda que seja doce e distraído o passar das horas.
Pousa teus olhos em minha nuca, sopra rente ao meu rosto
Levar-te-ei sem demora ao lugar onde o amor floresce.
Um jardim secreto eu fiz. Cultivei. Descobri.
Lá repouso nas vezes em que penso em ti.
Tua cabeça de flores ornarei, as tuas vestes em algodão e linho teci
E óleos de amor a teus pés jogarei.

Soneto V
Deixa que eu sussurre em teus olhos
E que eu descanse em teus olhos
Meus lábios, meus ais, meu cansaço
Deixa que eu sussurre em teus olhos
E que neles eu pouse um modo de querer quase mudo
Deixa que eu sussurre em teus olhos
Uma possibilidade, um modo de olhar oblíquo
Deixa que eu sussurre em teus olhos
Um sonho, um modo de querer muito raro
Porque foi no silêncio do sonho, no silêncio que em mim fez precipício
Tudo de belo e meu te dei e acordei tão sozinho
Então, deixa que eu sussurre em teus olhos
Ouve, complacente o meu sonho, me salva
Não vê que são como espadas, os sonhos são delicadas navalhas
Este querer sem palavras que os olhos meus te falam?


Mais, muito mais
Uns gostam do álcool,
Um drinque, uma bebida, um trago
Eu falo de um vicio tristonho
De sonho, de sonho, de sonho
Uns gostam do jogo
Cartas, poquer e dados
Eu busco a atração que norteia
A vida passada num quadro


Uns sentem os dias na boca
No paladar desvairado,
Eu quero um rolo de sonho
Para comer aos pedaços
Há quem da vida esqueça
da noite fazendo o dia em ritmo acelerado
Outros sentem prazer no que brilha
Na chave de um cofre lacrado
Eu quero um pouco de sonho
Passando lento nos olhos
Eu quero um pouco de sonho
Na rispidez deste mundo


Eu quero um pouco de sonho
Num cheiro ancestral, primitivo
Em um ritual esquecido
De óleo escorrendo na nuca
Lavanda, alecrim, laranja
Um sonho eu quero muito
Descendo pela garganta

domingo, 1 de agosto de 2010

Outono Etílico

Tem um sol lá fora, além da minha janela
E tem o calor ameno do outono, com uma esperança
E um perfume,
Que antes eu não sentia,
Que veio na madrugada, na madrugada overtouching

Na madrugada quase fria, na escuridão da noite entorpecente
Traz o azul escuro porta adentro
A embriaguez de um momento
A lucidez da penumbra dentro de nós,
A falta de palavras

No entanto
O amanhecer é a garantia da vida
Para o dia que começa
e de novo
e de novo
mais uma vez
e sempre
O sol está lá fora, além da minha janela
O calor do outono e a claridade que vou colher
Aos baldes, aos gomos, aos goles
Ávida e consciente
Da paisagem que os meus olhos precisam

E na madrugada fria, na noite azul escura
Do outono etílico
Não quero mais o vinho
Eu quero a alvorada, a claridade única
Eu quero ter um desejo e beber sem medo
Às cinco horas da manhã,
Naquela hora em que o mundo nasce
Sublime, destemido, overtouching
Eu vou beber por inteiro a sua embriaguez

domingo, 25 de julho de 2010

Carta a Um Amigo Distante

Pudesse eu contar uma novidade surpreendente deveria começar relatando os dias frios, os dias de cores neutras, que temos vivido no Rio de Janeiro. Deveria dizer da neve que teima em cair, o quanto temos patinado na Lagoa Rodrigo de Freitas, e das pistas de esqui na Serra Fluminense.

Quisesse eu contar uma novidade diria que seus copinhos de cachaça estão bastante solicitados. Toda a coleção de relíquias, que guarda tantas histórias, tem sido vigiada por mim e têm feito - os tais copinhos - a felicidade dos visitantes que passam por aqui. No entanto, posso garantir, tudo gente com pedigree.

Mas, na verdade, a cidade continua igual e é difícil explicar, em uma pincelada só, de que modo a vida parece sempre a mesma. No instante em que escrevo, a realidade é uma alegoria onde o que muda é o nosso olhar, nosso desejo, nossa disposição para a felicidade.

Quero agora dizer da minha saudade. E sem nenhuma vírgula, da saudade das nossas madrugadas, e de você, principalmente de você, me conduzindo no ritmo do Jazz-Band. E gosto de lembrar de nós, exagerados e emocionados, deitados no chão aqui de casa ouvindo aquelas músicas, você bem sabe quais, as que não ouso dizer o nome.

Como me disse, na última carta - o amor finalmente chegou - e desta vez foi você quem o escolheu. Coisa boa é poder escolher. Aproveite, vá em frente! Mas atenta para as prisões do sentimento, são cruéis, mesmo nas emoções mais intensas, aquelas que deveriam nos elevar para além desta condição terrena.

Devemos pensar na brevidade da vida porque não há mais tempo para a infelicidade, deixa que venham as pequenas alegrias porque também não há mais tempo para o desamor, para o que não for grandeza. Não nos resta nenhum mísero minuto, em desperdícios, para sermos quem não podemos.

Meu caro, por minha vez, lhe digo: quero o amor inesperado. Creia, que pode ser doce, e transformador, o inesperado, aquele que não avisa mas chega, não pede licença, mas alegremente chega sem fazer considerações, sem criar ilusões.

É real e breve, é a vida, o inesperado amor. É bom, e revolucionário, ainda que não se esforce para ser nada mais do que breve. Não era para ser mas é, o inesperado amor. E a gente acaba por descobrir sem querer que ele já está. É o nunca antes imaginado, leve, criança, etéreo, o inesperado amor. Que ama sem critério e adora, pela própria desobrigação de...

Meu amigo, acabei por amar a liberdade deste amor inesperado. Ele é um anjo barroco de asas enormes que lê os pensamentos da gente e nos rapta para outros mundos. Preciso te revelar um segredo: essa espécie de amor é, na verdade, não o que ele nos dá mas o que a gente sente por ele. Uma paixão silenciosa pela existência.

Estes amores inesperados, livres e breves não acabam. Descansam dentro de nós, nas músicas, no espaço, nas prateleiras, entre os livros que também amamos, nos sobressaltos das lembranças e das memórias. Ele aguarda tranqüilo, ele espera e não tem pressa, ele é o futuro.

Querido, sigamos obstinados o nosso destino, você tão longe, em busca deste Eldorado, nestas terras do sem fim, do outro lado do mundo. E eu, por aqui, tão longe, tão perto...

E para nós que somos teimosos e não desistimos, desta mania de sentir, aí vai...

Você me inspira, mítico, como Cobra Norato.

Veste a pele de seda elástica e seja aquele que saiu a correr mundo, atravessou rios afogados, e se sumiu no fundo do mato.

- Quero contar-te uma história.
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar.

...Vou visitar a rainha Luzia.
Quero me casar com sua filha.

- Então você tem que apagar os olhos primeiro.
O sono escorregou nas pálpebras pesadas.
Um chão de lama rouba a força dos meus passos.”

...De todos os lados me chamam:
- Onde vais, Cobra Norato?
Tenho aqui três arvorezinhas jovens à tua espera.
- Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.

O sol deste inverno anda a derreter toda a neve que se instalou na porta da minha casa, pois é amigo, bem vês que por estas terras tudo continua igual, tudo igual de modo diferente.

Beijos Afetuosos,

Cris

terça-feira, 29 de junho de 2010

A Sua Discreta Presença

(Para minha filha Clarice - Maio 1994)

Preciso de um verbo, tradução de sua presença.
E para o seu estar inopinado me acalmam somente revelações proféticas.
Meu corpo gravita, meu corpo é um planeta. Está cheio e lunar o meu corpo satélite. Habita-me o invisível, o cosmo, uma nova galáxia dentro de um corpo primitivo.
Lacrimejam meus olhos porque precisam de um telescópio, os olhos meus, para ver o que trago em mim como um céu, o céu que me cobre a cabeça, a terra que me apoia os pés e o mar, o mar, meu céu terrestre, a confundir meus horizontes. E para enxergar a você, meu astro celeste, preciso de um telescópio – e de toda a incrível ciência. Preciso de um verbo que o denomine.
Perdoa, desde já, esta minha primitiva rudeza, perdoa. Na verdade, sou alguém que pensa, que pensa que sou, e deseja amar compreendendo.
Tento não explicar você, meu corpo celeste, tento não colocá-lo na minha gramática, na minha esquisita ciência. Ama-lo-ei incompreensível e natural como a haste verde surgindo no lodo, na terra seca, numa cratera.
Viva em mim, minha nebulosa, e sem permissão vingue em mim, mais sábia do que tudo existente e - maior - em sua luz que o mundo meu não alcança.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Composição

Eu não sou aquela que a minha mãe gostaria, não sou.
Quem acredita que sou mãe de tres filhos, sem manto, sem véu, sem ave maria?
Quem acredita que acho a vida dificil e boa como as frases redundantes que escrevo, feitas de incertezas e verdades.
Quem acredita que existe este prazer da poesia como na vida feita de imaginação e ondas revigorantes.

Que sou crédula e insegura e não sei, não sei e tenho medo, de estar na vida sem saber, que de fato estou na vida sem saber - mas estou - e ainda digo: meus braços estão abertos e sigo experimentando o desconhecido caminho correto onde faço uma certa confusão de cores, onde ouço música, em busca, em busca, do bom gosto.
Porque preciso, e acredito naquela natural sofisticação do básico e na beleza do que é humano.

E se eu morrer amanhã saiba que não acredito em mais nada e acredito em tudo que me der vontade, que a vida é uma reinvenção em si mesma, é a nossa invenção total e avassaladora.
Saiba que sou, tentei ser a simplicidade de um dia após o outro.
Um dia apos o outro, um dia, um dia após o outro.

E se eu morrer amanhã saiba que eu me emociono.
Eu me emociono com as pequenas coisas, o mínimo me faz sentir viva.
Os sons e o silêncio - o silêncio triste do vazio e da morte - pode ser muito completo. Muito embora, eu acredite que os mundos são feitos de música, música e poesia, pinceladas loucas, tudo é composição, tudo é feito de pensamento criativo, e eu serei aquela que imagino e quero, aquela que construo e destruo persistente. Eu não sou o que esperam.

Eu não sou quem minha mãe gostaria, não sou.
Quem acredita que eu sinto a passagem das horas pelas emoção, esta complexa fagulha, este fogo, brasa flamejante ao abrir os olhos, quase parece um pecado, quem acredita?
E que eu tenho três filhos e não tenho certeza sobre coisa alguma?
Às vezes sim, às vezes não, Maria envolta de pureza e humildade se veste de escudo e espada e um elmo dourado feito de alguma dignidade e ouvidos surdos diante do mundo. Sem manto e sem veu, apenas eu e rezas na madrugada.

Mas quem acredita que na poesia de não saber a gente pode viver?
Que a emoção vive da incerteza. Que desaprendendo a gente pode viver.
Eu não preciso de verdades, eu preciso de imaginação para todos os dias fazer o igual diferente para que eu não perca por aí minha emoção em troca das facilidades.
Quem acredita na importância do que eu nem sei explicar direito, mas sinto
E tenho a certeza de que não quero contar minha vida pelos dias dormidos.
Que eu permita aos meus que eles sejam, porque ser é o que há de mais intenso, e depois disso eles sejam, sejam sem cansaços
Porque eu os ensinei a não serem meus.
Quem acredita que o amor pode ser apenas o querer bem da vontade.
Querer bem, eu quero te dizer, que te quero muito bem. Eu sinto o gosto de cada dia, de cada acontecimento. Uma tentativa diária e entorpecente.

Quem acredita nesta lucidez estranha, feita de pequenas loucuras de liberdade?
A vida tem um manual com meu nome.

sábado, 10 de abril de 2010

O Sábado

guardo
o sábado, só, simples

e sem expectativas
estou a recolher
as horas da vida
que escolhi, no silêncio do sábado
guardo
as vozes
as palavras
ditas e pensadas
no silêncio do sábado

guardo incandescente
as orações
as músicas
as rimas e palavras lindas
que ainda não criei

guardo
o silêncio precioso precioso do sábado
minhas forças
o encanto
no silêncio que existe antes das palavras
como uma oração nunca antes proferida
eu guardo
o cântico, o sagrado
o inédito do sábado
guardo sem explicação
nem cansaço
como um amor nunca antes declarado

domingo, 21 de março de 2010

A Vida No Domingo

Antigamente eu achava que o amor me dizia verdades
quando mandava mensagens disfarçadas em bilhetes

e seria simples o amor
como diálogos na padaria ou uma viagem de onibus
zona sul centro simples seria
como tomar cerveja no boteco da esquina

antigamente me diziam:- como você é complicada, e esquisita!
antigamente me diziam:- acho que você é fria...
eu não acreditava e acreditava muito
e todo o estranho mundo em volta me entristecia

hoje me acham complexa e ainda dizem que sou diferente
de um modo muito particular eu mesma digo
estou sim um pouco mais fria
e portanto hoje não encabulo, sigo
a fazer piadas quase sem nenhuma graça
do que antes me entristecia

antigamente eu era crédula
antigamente me importava com coisas
sem a menor importância e achava digno
a gente se manter fiel aos princípios
e possuía certezas absolutas que agora esqueço
e hoje preciso me conhecer todos os dias

antigamente eu acreditava em amor
e achava beijar a coisa mais linda
sem medo e entregue, sem medo e alegre
querendo fazer pesquisa
da sua boca na minha
da sua boca na minha

e assim a vida corria fácil,fácil
sem pensar minha própria incompetência
imagina,
eu só queria aquela pureza que dormia comigo

porque antigamente eu sentia o poder das palavras bonitas
e gostava de esperar você amor
recitando poemas bem devagar, bem perto do seu ouvido,
abrir um livro, decorar tudinho
palavras, aromas, milagres e depois
vamos fazer silêncio e amar
Bandeira, Drumond, Pessoa, Adélia, Cecília
e todos aqueles poemas de amor de Shakeaspere
eu achava a coisa mais sexy do mundo

contudo quem adivinha quando o amor, ao amor não evoca?
eu sei, eu sinto, conheço aquele estranho vazio e juro
não querer mais amar o que for vulgar
não vou mais me perder em facilidades
hoje quero um sopro de vida, forte
voraz, avassalador

não há mais lugar para a falta de poesia
antigamente a vida era fácil
antigamente confesso eu era mais simples

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sexta Das Meninas

(este texto foi criado a partir da musica - Noite das Meninas - de Tulio Borges)

sexta-feira final de expediente
fim de um tédio início de outro
estou morto sou só um corpo
um corpo que perambula
alimenta anda trabalha vive
como um corpo morto a cumprir tarefas
acabou a semana
desligo
o ar condicionado e
luzes
tranco a porta
na noite quente abafada
o ar seco me fere a garganta
corta

Quarto apertado ar parado na janela de cela paisagem da noite fria cenário de sombra não tem luz só tem fumaça o óculos embaça. Não tem luz tem lâmpada não tem fumaça tem gente que respira que respira o vapor de corpo vivo e se mistura na boca ao gosto de álcool e de saliva.
Não. Aqui ninguém respira aqui é só a noite escura na lâmpada amarela baixa balança perto da cabeça enquanto a gente divide um pouco do ar e da língua funda que encosta e troca e pega e tira e experimenta e volta e pára escorraça e geme e continua no álcool e na boca a noite escura e seca. Queima a respiração debaixo da lâmpada amarela na esquina da parede áspera encurrala arde e arranca o suor do álcool na boca as mãos espalmadas ardendo rasgadas abertas fechadas entram com o gosto de medo molhado de gasolina e saliva.
Estou morto estou vivo estou na caverna deglutindo gozo e gemidos monossilábico primitivo no ocre gosto da pele que sobe e desce na mordida entre as coxas na minha boca palato e virilha e não respiro sinto o ocre a poeira o chão nos lábios e nas costas saliva e pressa óleo e pernas que me prendem sugam o pescoço e me invadem lábios um medo molhado nervoso me suga ofegante o cheiro de floresta no leito da noite. Um bicho que reconhece no escuro um corpo na urgência da noite fina enquanto abre fecha vira passa a língua logo acima a lâmpada ilumina apaga e queima no vapor desconhecido do incenso a pele suada engole desvario e tristeza.


Nas esquinas, nas paredes escorre
a noite fina das meninas
da janela da cela entra bêbada em mim macia
derrama a língua no céu da boca
veludo e melancolia
o pote cheio de agonia

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Filosofia Dos Blocos ou Considerações sobre a Folia Pagã

O Carnaval me fez pensar, entre um bloco e outro, no sentido da sensualidade, na complexa teia do sexo e do desejo. Qual o nome do sentimento que me assaltou no meio da folia? Eu não sei, mas entendi. Entendi sobre o que eu desejo - no Carnaval e sempre. O Carnaval é catarse, o carnaval é carência, o Carnaval é liberdade de suar, beber, se jogar no mundo. A vida também.

E de repente, entre o Azeitona sem Caroço e o pula pula na Praça Santos Dumont, me pus a considerar o aspecto obscuro da minha relação com a Folia do Momo. Apesar de ser uma festa pagã o que senti foi a falta daquilo que move a sensualidade. Faltam detalhes, luxúria e adivinhação. É agua morna,falta de sedução. A obviedade sem nenhum charme. E eu que só queria um beijo meus caros, não encontrei, neste católico carnaval não sensual.

Somente beijos explícitos, que perdem o gosto, como a comida de um cozinheiro ansioso. Nenhum moralismo nesta afirmação. Muito pelo contrário. Eu queria que alguém me raptasse para um mundo de lasciva imaginação. Eu queria muitíssimo perder o rumo - me perder - na estrada fantástica do Carnaval, da tal festa pagã.

Eu queria beijos carregados daquela espécie de maldade que não machuca, uma maldade transcendental, repleta de percepção e sutilezas. Eu queria um beijo que me deixasse surpresa, com medo de mim, e sem ausências.

Eu procuro arte meus caros. Arte não acadêmica. Beijos são mistérios não revelados. Eu procuro os mistérios não revelados. O beijo precisa de arte, de senso criativo, precisa de alma e estética.
São tantas as cores, as texturas, os caminhos. São muitas as demoras e maior a intensidade.
O explicito é sem sal e cansativo. Não seduz, não provoca, não transforma.
E só o que for intimamente erótico pode transformar uma mulher. O que nos separa dos animais não é a inteligência mas o erotismo. A nossa arte mais humana.

Eu quero a arte meus caros. A não-acadêmica arte de beijar.
Impressionista.
Expressionista.
Surrealista.
Só minha arte de beijar.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Emoção De Toda a Vida

Eu chamo a vida para mim, aceno, e às vezes ela não obedece. Indomável, impermanente e difícil. É a surpresa e o susto do improviso. Vem, eu peço - me arrebata - ela gosta, e eu também.
A graça da vida é o presente aceito. A vida faz o que não foi feito, mostra o que o que não sabemos. Salta dos meus olhos, a inédita estréia dos dias, a aventura da dúvida, dia a dia me convida para a revolução do pensamento. E na busca, pelo direito de ser dona de mim, me rendo a um secreto mundo que borbulha no sangue, no pulso, na veia do meu pescoço. A vida, ainda que tranquila exige emoção. Então, de repente vem o tal susto, mora no diafragma este viver ofegante. Uma espécie de sentimento sem nome que trago na marca da minha íris, onde um pensamento são vários.
Sinto que a paixão é cansativa e do avesso, o amor é triste conceito que agoniza  se falta a emoção. Vive em mim o excêntrico amor que não conheço. É só emoção. Não nasceu, fecunda. Não vem do outro, está em mim. Abraça e não desdenha, agrega cuidadoso. Por vezes sofre pelos salões e segue maior e mais incontido. Não grita nos palanques, não propaga nas esquinas, lateja como um murmúrio, erótico e silencioso.

Eu a quero, emoção minha, com uma vontade insana, com mimos, carícias, palavras estranhas e risos, porque os acontecimentos passam mas eu guardo a poesia. E por saber única, a mantenho leve, e como se fora um experimento de ser sério e brincar,  ao montar um quebra-cabeça o mundo se mostrasse para mim. Estou a encaixar as peças e outro desenho aparece.
E nesta brincadeira, estou só, sou o mundo, sou outros e muitos. Um viver dentro, um viver para dentro, uma espera humilde. Sou a que vai até o rio beber daquela água muito brilhante, e ainda que não tenha sede a entorna pelo rosto, de forma a molhar a boca, apenas para sentir um gosto. Sou aquela que se despe e se banha nua e cumpre um ritual para que a felicidade se torne simples. Sou esta mulher que se rendeu sob o céu azul e límpido e nada mais fez além de se secar ao sol, sob o sol brando, e ao sentir a leve brisa na pele deitou-se displicente sobre uma pedra. Porém, como se sofresse uma febre, mergulhou no rio novamente e se entregou até o cansaço do corpo, até ficar diluída. Sou a que vestiu as roupas e estas lhe ficaram úmidas das águas novas e translúcidas.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Versos da Quarta-Feira de Cinzas

se eu fosse mesmo poeta, poeta de nascença, escreveria
na quarta feira de cinzas o poema do nosso carnaval
rimas simples de uma certa melancolia,
"tanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão..."

se eu fosse mesmo poeta, seria do tipo
doido
aquele que sabe mais do amor do que de si
e não é lá muito conhecedor de alegria

se eu fosse mesmo poeta, seria do tipo
confuso
que te procura - a te ver na multidão
em cada esquina no meio da folia

se eu fosse mesmo poeta
já teria feito versos de esperança infantil e perguntas
"quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo
que eu quero morrer no seu bloco,que eu quero me arder no seu fogo"

mas eu queria ser sambista, sambista inspirado e sem dicionário
uma marchinha ingênua e atrevida eu te daria
para cantar com cadência
no meio do povo, do alcool, da roupa colada
como naquele ano
do teu braço na minha cintura
e a mistura do teu gosto no meu

mas eu, sambista não sou,
não sou do teu carnaval
eu que não sei fazer marchinha
sou uma tentativa de refrão
"hoje está fazendo um ano e foi no carnaval que passou
que te abracei e te beijei meu amor"
Agora chega.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Gentileza de Ser

Já escrevi muito sobre o afeto, que considero um sentimento perfeito. Já escrevi muito sobre amizade, que considero um sentimento maior do que o amor, mais generoso e completo.
Já escrevi algumas vezes sobre a gentileza, que antes de ser uma série de ações aprendidas, antes de ser um comportamento, é sim um modo de viver. Eu gosto de ser gentil, e me faz bem o exercício diário desse sentimento, dessa crença que me deixa preenchida.

É lindo o prazer de ser gentil. E o prazer de ser gentil abrange ações corriqueiras. É deixar o jantar do seu filho, do seu marido, do amigo que mora com você - preparado, mesmo se ele não pediu. É dar uma carona para alguém que mora fora do seu caminho. É falar baixo mesmo tendo razão. É calar quando a sua vontade maior é quebrar todos os cristais da prateleira. A gentileza é solitária, por vezes invisível, não deve esperar retorno.

Definitivamente, ser gentil nas emoções é difícil. Vivemos tempos medíocres onde a gentileza é facilmente renegada e confundida com tolice, parlemice, falta de tino, e pior do que tudo, fraqueza. Tenho considerado muito a gentileza de ser. A gentileza de ser é antes dizer, para si e para o mundo, eu sou, tu és, ele é. Aceitar. E aceitar é uma das formas maiores de ser gentil.

Eu sei que é preciso ter cuidado, e ficar atento, porque o mundo é cheio de crueldade. Mas não tem jeito e já expliquei: tenho convicções de emoção, não sirvo de paradigma social e sou, sou sim, excessiva.

"Chá com a Vilma"


"A paciência faz parte do meu caráter.
Sou do tipo que tem convicções de emoção, não sirvo de paradigma social.
A não-reação guarda a dignidade.
Sem arroubos, rasgos, lágrimas.
Risos, não mais como antes;
Histórias, não mais as minhas;
Amor, não mais aquele;"

A não reação guarda a dignidade. Reagir nem sempre é a melhor saída, é a pior maneira de se igualar. Reagir é ter que sair de quem eu sou e me transformar no que o outro quer que eu seja. Então vou apenas agir, sendo eu. E ser a gente mesmo nos leva à glória do preenchimento. A grande importância da gentileza está na pura desobrigação. Ser delicado por escolha é ser natural e consciente porque a gentileza é silenciosa.
E tenho gostado muito de me sentir inteira e preenchida ao ser gentil com quem não teve gentileza alguma comigo. Apenas me deixo ficar, repleta de compreensão e silêncio.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Banho, Ginastica e Café Preto

Outro dia me falaram de três coisas realmente essenciais - fora o dinheiro - este luxo básico. A menina, amiga de uma amiga, eu nunca mais encontrei mas a nossa identificação, que fez a noite valer a pena, começou com uma frase dita por ela na mesa do bar: - três coisas são importantíssimas na vida - banho pela manhã, ginástica e café preto. Sabedoria budista.

Sempre tentei praticar mas ainda não tinha esta clareza. E a clareza da menina me encantou. Eureca. Eu preciso da clareza de saber e de praticar. A paz de saber exatamente o que se quer, o que se necessita, o que se deseja. Três questões também fundamentais. Desejo, necessidade, querer. O tripé da confusão faz o terror na cabeça do ser humano que não se organiza na empreitada de viver. Quando minha nova amiga, entre o segundo ou o terceiro chopp, fez a revelação sobre suar o corpo, acordar o corpo e ligar a mente, roubei para minha vida a idéia de manter tal disciplina de modo a ser o remédio para acalmar o louco que mora em mim. O remédio é a clareza de todos os dias - banho de manhã, ginástica e café preto - é o saber sobre si.

Édipo Rei já nos disse tragicamente: - saber é poder. Édipo se torna escravo da arrogância, que não o deixa ver a realidade. Mata o pai, dorme com a mãe, enlouquece, fura os olhos, se auto flagela. Tirésias, o cego vidente sabe, prevê. O Rei a ele se rende.

Toda a estrutura do direito e da justiça nasce a partir desta frase. Saber é poder. O conhecimento dos fatos gera o poder mas a tragédia continua dentro da gente. Parece que não aprendemos que, do mesmo modo, o saber das emoções nos torna donos de nós.Poderosos em nosso reino interior.
Sobre o louco que mora aqui dentro, meu Édipo-Rei moderno, muitas são as histórias, fica para outro dia. Ele é o ser que carrego por aí. É o meu eu confuso, mimado, desesperado, por vezes irônico, medroso, que tem medo de si e dos outros. O meu eu, espécie de não eu - muito eu - que nem sempre tem a clareza sobre - querer, necessitar, desejar. No entanto, protejo e amparo, o meu eu louco. E subitamente - certos dias e certas noites deixo que ele me tome - quando estou cansada de pensar, cansada de ter certezas, entediada com a minha falta de coragem para ser feliz na vida.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sonho de Uma Noite de Verão

quero saber quem
quem me fez banhada na timidez
de uma vida desatrevida
no pulso de um viver por dentro
e no fundo de uma noite inteira
ao teu lado ficar em cinema mudo

quero saber quem
quem foi que me fez deste jeito
no acanhamento sem descanso
com a vida colada na pele a sentir
os acontecimentos
as sensações
tuas, minhas e
do mundo à minha volta
somente trilhas sonoras

ah, pudera
na tímida e silenciosa vida
te seduzir na noite erma e quente
quando eu não fosse eu de verdade
ser apenas algo divino e sem paradoxo
te beijar, te fazer revirar os olhos


ah, pudera
raptar os teus sonhos nesta noite azul escura
e te seduzir na madrugada, na minha vida
te trazer para a minha solidão ardente
te dar aromas lilith de pele escura incandescente
eu poderia
não ser eu de verdade
sendo eu de verdade
sem temor algum te querer

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Blues

Alguns minutos depois das onze horas da noite esfumaçada
Ilumina uma quadra da rua, a lâmpada amarela do poste quase tombado
Ilumina, na porta do bar os poucos carros parados
Enquanto a mínima estrela do céu escuro
A luz neon do letreiro em curto embaça
Alguns minutos depois das onze horas da noite no meu relógio arranhado 
Conto o tempo - do copo, da música igual e ininterrupta
Nos desenhos do Dry Martini e naquela solitária azeitona
Sentida na minha boca de batom vermelho pálido deixado
Na borda grossa do copo de vidro barato
A lembrança esquecida para o dia seguinte
Alguns minutos depois das onze horas da noite
Treze minutos passados no meu vestido estampado
Desbotada a flor é a flor – meio a meio - cabelo para o lado


Cai sobre a testa despenteado entre um gole e outro
Entre um gole e outro, entre um gole
E outro
O delicado gesto de consertar os cabelos e beber
O drink, o dia, a vida  - e a tolerância engolir muito dry
O dry, dry Martini, e esperar e sorrir e sentir ele chegar
No salgado, no ácido, no meu cruzar de pernas cansado
O palito jogado no cinzeiro prateado enquanto acendo o último cigarro imagino
O amanhã vinte e um minutos passados depois das onze horas da noite

Amanhã tudo bem,
Tudo bem,
We Would try again,
Maybe someone, maybe...
I'll try again