quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Marina

Eu tenho uma amiga chamada Marina.
Se ela fosse minha irmã seria a caçula. Mas não é minha irmã.
É um amor na vida. E sabe como eu sei? Porque a gente se revela. Ela é novinha mas me dá broncas, conhece as coisas do mundo, entende os absurdos, me ensina muito, embora ela seja Balboa e eu Apollo Creed. A gente ri e toma cerveja, se perde na rua, escorrega na chuva e também esquece onde foi, porque foi sem motivo.

Vem me buscar quando eu peço, me ouve, me abraça, me aceita, me leva embora prá casa. Gosta dos meus defeitos, adora minha esquisitice, e depois me manda parar com garotice. Me chama de mau elemento, pivete desclassificada, cara de pau etc e tal.
Ela diz: você não vale nada então, fala a verdade prá mim!

Eu tenho uma amiga chamada Marina que me liga de madrugada. A gente não tem limite, não tem vergonha de nada. E nas conversas me mostra como é bom a gente ser gostada. Ela me deixa ser, e eu deixo que ela seja o chefe da minha quadrilha, que faz rimas como ninguém.

A gente espera para ver o sol nascer no Humaitá, no Jobi, no sofá da minha casa onde eu falo alto e ela dá gargalhadas. São dela os melhores monólogos e performances de atriz, de menina inteligente e bonita, de quem me faz feliz. Outro dia eu estava triste, e até quis chorar um pouquinho, mas isso ela não deixou. Porque ela é show de peteca e sabe que eu tenho síndrome de Casemiro de Abreu.

Só tenho uma coisa a dizer: eu tenho uma amiga chamada Marina.
Amizade pura que é mais que amor. E digo mais: quem há de negar que esta lhe é superior?

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Palavras Minhas

Eu não me acho poeta, nem intelectual, nem escritora. No entanto sonho com o texto perfeito. Tenho cismas com a palavra que conte o meu sentir absoluto. Eu tenho obsessão pela frase simples e cheia de cadência, tenho um som, eu crio o ritmo para o texto perfeito.
Hoje, trinta de agosto, acordei desejando as tais palavras certas para meu sentimento nada modernista. Hoje acordei antiquada, levantei melancólica, vazia, e com saudade de você. Eu estou Frank Sinatra.
Subitamente passou. Porque resolvi sentar e escrever. Cuidar da minha casa, dos meus meninos, sentar e escrever. Neste momento estou com uma alegria frivola, somente porque procuro as palavras certas.

Ontem fui dormir decididida a te escrever a palavra viva, te presentear com a palavra inpensada, quero mesmo te encantar. Mas não sei se consigo fazer direito, fazer bonito. Não sei se vai ser perfeito mas é o que eu tenho, básica e exposta, sou eu no emaranhado de letras a te procurar nas paisagens, nas historias, na falta de senso e de harmonia. Eu estou misturada às frases, sou eu com saudade, ouvindo Fred Astaire cantar "They can't take that away from me".
Poderia fazer uma rima com teu nome para dizer o quanto eu te adoro, mas seria tão pouco, não seria como eu quero. E porque a simplicidade é luxuosa eu quero te enfeitar também com loucura. Excesso de você.

Quero te dar de presente palavras que sejam uma pintura, quero te dar um texto impressionista.  Estou escrevendo para você. Eu gosto. Adoro pensar que cada quadro pintado é feito especialmente para te tocar e que eu estou mais para Frida Kahlo, apesar das peônias no braço.
Quero te pintar com palavras estranhas, sujas de beleza, mágica, emoção subjetiva, quero te dar palavras, as mais intensas, violentas, com teu gosto,  e as frases violadas do teu corpo.  Vou criar, à imagem das tuas ânsias, palavras que ainda carregam impregnado, o teu perfume. Eu quero pintar palavras que te beijam e te abraçam. 
Saiba que eu te dou palavras para te dizer tudo o que não consigo. Que não sei me expressar na vida, no dia a dia, e talvez não saiba amar como deveria. Eu sou excessiva. 

Eu não sei se consigo, não sei se estou aqui, eu sei que sinto   a emergência me estourando as veias porque eu  vou escrever que quero você, que está longe e a saudade tão perto. Eu gosto do teu sorriso, do teu exêntrico ser, eu gosto do teu calor,  da tua poesia. Já nem sei mais o que pensar. Vou te deixar a simplicidade e a loucura - é o que tenho - palavras minhas.

domingo, 28 de agosto de 2011

Aprender a Esquecer

Eu sempre soube o que dizer, sempre tão articulada, agora estou sem palavras, agora estou em um impasse silencioso de não saber, nem minimamente, o que dizer, tem uma história que não consigo contar, viver, achar graça, desistir, reagir, melhorar, fingir, argumentar, me mexer e caminhar, escrever, elaborar, ir na esquina, arrebentar, tem essa coisa como se fosse uma doença, que me deixa cansada, com febre alta, com desespero, sem reação. Eu nao sei por onde estou, onde me perdi, onde me escondi. Bom, agora está na hora de aprender a não ser. Bom, hoje está na hora de aprender a ser outro alguém porque eu já nao sei ser eu. Ser eu não está me ajudando, ser eu está piorando, ser eu está confuso. Ser eu está me doendo. Talvez eu devesse voltar a ter treze anos, voltar para aquele tempo que fazia parte de mim. Estou no caminho errado. Eu quero saber ter treze anos, com minhas certezas. Ai, que saudade de quem eu fui. Ai que saudade do que eu gostava. Eu jogava frescobol, eu nadava, eu ria fácil e tomava muitos caldos na praia de Ipanema. Eu dava colo para os amigos e tinha muita paciência para a vida. Eu achava graça e era muito animada, gostava de dançar mesmo sem saber dançar a dança, não tinha nenuma timidez porque eu sempre sabia a hora certa de todas as coisas.
E ser Domingo só piora tudo, eu queria que o dia fosse calmo, eu queria me encontrar, te encontrar, ter amigos, não ter conflitos, eu queria pelo menos poder chorar. Mas nem pra chorar eu estou servindo. Até isso eu já nao sei mais fazer, e me esqueci de como era bom ser natural e espontâneo, ser relaxado e alegre, nem isso me lembro mais. Está tudo esquisito, é domingo, eu vi o dia nascer, estava bonito, mas  não fiquei feliz. Eu queria poder sofrer com dignidade. Eu não sei mais nem o que pensar, eu nao sei para onde ir, estou em uma encruzilhada, não vejo beleza em nada, não vejo chance para mim. Eu quero desaprender de novo, a não ser eu novamente. Eu quero desaprender as coisas do mundo, eu quero desaprender isso tudo que um dia me interessou. Eu quero aprender a ter surtos e raivas e chorar até ficar com a cara inchada, eu quero aprender a ter tolerância comigo, eu quero aprender a desistir, eu quero gostar do abandono e ser feliz sem muito motivo. Só porque hoje é Domingo. Eu quero esquecer, quero apagar os vestígios, as pistas, a emoção, eu quero esquecer de como é sentir tanto, querer tanto, eu quero esquecer de como é não conseguir parar. Só porque hoje é Domingo. De tentar esquecer o que eu gosto, de você que eu gosto, dessa obsessão. Só porque hoje é Domingo. Vou aprender a esquecer.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ah, Cristiane!

Eu sonho, sonho o que eu nem sabia e sonho tanto que às vezes nem sei, qual é a minha vida. Eu sonho, e me pergunto, será que é verdade - aquela que já fui um dia? Aquela que sonhou pensando que sabia da vida de verdade, da verdade que sonhou a pensar que vivia. Eu sonho coisas estranhas, impossibilidades, que quando acontecem, não consigo dizer se foi sonho ou realidade.
Já sonhei que era Claude Lévi-Strauss.
Já sonhei que era  a mulher que espera, tomando um Dry Martini, treze minutos depois das onze. Na boca o batom vermelho pálido, o vestido estampado, o delicado gesto de consertar o cabelo e beber o drink, o dia, a vida - e a tolerância engolir muito dry. Ela me ensinou a dizer:

amanhã tudo bem, tudo bem,
we would try again,
may be someone, maybe
I'll try again

Já sonhei que dançava tango em um salão de mármore e que era Billie Holiday de cabelos molhados, embriagada pelo Gim, intoxicada de Blues, cantando - Don't explain...
Até fui comer salmão na Finlãndia e peguei na sua mão assistindo às noites brancas. Já sonhei com amores e viagens. Uma tribo estranha, gente matriarcal e risonha, que era como nós em outro espelho. E sem ânsia nem fome senti a prontidão da vida, plantei as sementes e comi as pitangas, fumei as folhas para nao desperdiçar, os cigarros de palha que aquecem o plexo solar.
Já sonhei tolices - que de tão tolas - não consigo escrever, escondo lá no buraco, atrás do buraco, feito à navalha no fio afiada dentro de mim, atrás do jardim cortado, cavado, onde escondo também o pingo gotejado de loucura com o qual imaginei, criei histórias de verdade que só cabiam na minha lucidez virginiana, longe do normal.Fora de mim não tem nada. Aqui dentro um mundo, uma casa, um lugar, um silêncio do fundo do mar.

Eu quis sonhar acordada. Não quis parar, eu não sei parar, se o corte é fundo, a lâmina é fria,abre a pele em finos flancos delicados e é doce a cor da pele se na dor não há pecado. Experimentei, a navalha, senti a pele, amei a cor. Eu estava acordada. Não há tristeza, o sonho me retratou.
Um céu em Amsterdam. Chá de hortelã na Turquia. Uma cerveja nos campos da Irlanda e passeios  com bicicletas vermelhas. Um inverno inteiro vivi para sonhar, o mais que perfeito silêncio do amor, sob a lua negra reinando em Ipanema e eu sozinha de olhos fechados. 
De onde parti, até onde cheguei, tem a vida escrita, a vida inventada, e aquela que eu não sei ao certo se vivi.

- Ah, Cristiane, eu sei que este texto não está bom...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tudo Igual De Modo Diferente

Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio. Esta frase marcou por boa parte da minha vida.
Mas o difícil é reformular a tendência de querer o concreto, o cristalizado. É triste e fantástico perceber a impermanência. O movimento da vida.
Morrer para nascer todos os dias. É o preço da liberdade. Quem quer chupar essa manga? Quem vai dar a cara para o tapa? Mas no fundo, mesmo que não consiga a tranquilidade do desapego, estar consciente já é um alivio. É entender que só na impermanência se pode viver. E porque se aborrecer, quando já se sabe, que o fluxo é independente de nós?
Vou deixar que venha, vou deixar que me fira a ruptura e morrer um pouco a cada dia.  Vou deixar que me assombre o desconhecido e vou me permitir aprender novamente qualquer novidade.
Eu vou mergulhar neste rio, vou sim, mil vezes. Ele jamais será o mesmo.
Então, ouvirei aquela voz me dizendo: - se vira aí, minha filha, e aguenta essa dureza do mergulho, do profundo, da falta de ar. A dureza necessária para entender.
Vou deixar a vida tomar conta com sua lógica torta, sua lógica não matemática, para compreender abstrato. A certeza de que não há freio, que a vida não vai parar para me esperar. O que ela quer de mim  é esta calma, a calma complacente e louca.
É o que farei. Estou perigosamente calada. Mansamente em silêncio. Tem dias que acordo e não quero nem ser eu, estou apenas me fazendo companhia. Estou a observar, mapear, me perdendo nos labirintos. Dentro de mim tem buracos negros, jardins e grutas, um escuro gotejante, uma mata fechada e úmida, mas eu tenho também bancos de madeira para sentar ao sol. Tem muitos eus e vários deuses. Estou a passear. Com a calma necessária ao medo. Não quero ser eu. Estou no labirinto e na contra mão. 
Há vinte e dois anos nasceu meu primeiro filho. Hoje eu tenho três. Com vinte e sete eu liguei as trompas. E nada que eu faça depois disso terá a mesma importância, o mesmo valor, a intensidade da aventura. Tudo tem um preço. Como sou uma pessoa educada, peço licença e sigo, não olho para trás, não pego espelho emprestado.
Agora eu vou dormir. E começar de novo amanhã, um dia igual.
Tudo igual de modo diferente.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Dia Interminável

Acordei.

São cinco horas da manhã, o céu está azul claríssimo. A lua cheia e branca está viva.
Café. Suco de manga. Já são seis. O azul está mais azul no céu da lua cheia, agora muito ao longe, como você que não está aqui.

Onde quer que você esteja, e mesmo não estando aqui, vou te colocar no meu dia.
O café está quente, cheiroso, meu café é gostoso. Já são oito horas. O sinal sonoro da escola municipal em frente da minha casa toca, toca, mas você não sabe disso. Nem que eu faço bons sanduíches e panquecas para comer com queijo e mel. Muito embora você saiba que eu adoro agua de côco logo de manhã e que gosto de comer maçã. Ah, para mim já está bom. Para quê saber mais, não é?
Que eu gosto de acordar cedo e tomar banho quase frio. Que eu gosto de voltar pra cama com o cabelo ainda molhado. Que eu gosto de dormir com você.

Nove.
Eu gosto dessa hora da manhã. Eu estou de férias. Vou cozinhar peixe com limão e pimenta, misturar o ácido com o ardido e comer com batatas chips coradas no forno, crocantes e salgadas, salpicadas pela salsa. Assistir filmes, antes do meio-dia, gosto muito, isso eu te contei. Mas eu estou de férias de você.

Meia hora depois das doze, Etta James canta para mim, a comida traz um sabor até a sala, e eu sinto uma saudadezinha boa de você, uma saudade daquelas, linda e breve, feita de uma lembrança que já não recordo ao certo, está esmaecida, mas como já expliquei não lembrar é melhor que esquecer. Não lembrar é muito melhor que esquecer. Dá uma saudade aumentada e logo depois começa a tocar Arnaldo Antunes.  
Então eu resolvo escrever para colocar você na minha história, para lembrar de aprender a esquecer. Para sentir que a ficção é maior que a realidade, para viver a poesia que é maior do que qualquer sentimento, é o sentimento de todas as coisas, boas e ruins, que passam por nós. É falta de nexo que arruma a bagunça. A poesia é a  angústia e a descoberta daquela palavra que tanto se procurou, é a busca. A poesia é a frase certa e o alivio, é o não sei. Sou eu e é você.

Três da tarde. O sol vai alto. O dia quente brilha. A música ainda toca aqui em  casa. Ela me toca, me toma a cabeça, recheia meus pensamentos, que estão em um lugar desconhecido. A música me traz alguém, me traz de volta, me traz pra mim. Então eu confirmo, que a felicidade transforma, que a tristeza é um deja vu que se deve esquecer mas a gente gosta de lembrar. A tristeza é confortável, como um sofá acostumado com a gente. Vamos deitar pelo chão e ouvir Bethania sem medo de ser feliz. Para quê saber mais, não é?

Que eu gosto desta alegria que assalta à mao armada. Que eu gosto da euforia, da febre alta, de Stella Artois bem gelada. Que eu gosto de dormir com você.

Às três horas da tarde toda confissão é válida. Então já não sei sobre a ficção, a realidade. A literatura me coloca "no lugar onde quero estar", e esta frase peguei emprestada de você, porque às três horas da tarde só me resta a  liberdade, é como ser feliz por um momento, não importa, a felicidade pode ser um peso pelo medo da certeza de que vai acabar. Não me importo, se tem uma coisa que não sou é covarde, então eu posso te contar desta saudadezinha, perigosa e não comportada, que surgiu hoje só porque eu estava feliz por nada, neste dia comum e burguês.
Ouvindo musica, cozinhando e pensando em você. E para quê saber mais, não é?
O dia nem terminou ainda, dia interminável.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Dialética de Segunda-Feira

Sim. Eu digo sim. Eu deixo.
Você entrar, sentar, comer, me tomar, descansar no sofá, gargalhar, me engolir.
Sim , eu te deixo ser quem você quiser, ser alguém, ser meu bem, ser ninguém, ir mais além e ao longe que nao se vê, eu deixo você não ser o que não quiser.
Eu te deixo entrar e ser a incógnita, a pergunta e o mistério, te deixo ser o que importa.
eu te quero, sem caixa alta, sem relevo, do avesso, sem costura, sem frescura, naquele frio do outro dia, na ventania, pegando chuva  a correr pela rua, na feliz surpresa da falta de medo do imprevisto da vida. 

Sim, eu me deixo.
Ser louca por você sem procurar sentido, eu me deixo ser louca por você - sem precisar de acordo -e sem muita clareza eu me deixo, ser louca por você. Eu me deixo brincar de fingir, de colorir, de viajar, criar pensamentos sem pensamentos com pensamentos que só cabem você. Eu me deixo ser uma história que você conta sem pensar, uma invenção, um cha de ervas, um sonho intenso. Eu me deixo ser uma alucinação.
Sim. Eu digo sim. Eu deixo.
Eu deixo que você entre e seja o agora que já termina, o escuro da noite sem lua e a lua negra durante o dia, eu te deixo ser o calor misturado com frio, ser o exagero da pimenta, da ardência,  o desenho da flor, o corte, o rasgo, a dor, a quase morte, o desejado instante da tormenta.
Eu te deixo entrar e ser o desalinho,  o palco vazio, o solo mais lindo de Isadora Duncan.
eu te quero, e te dou o tempo de presente, a minha única flecha e o meu escudo, te dou meu traço curvo quase inocente, meu andar em descompasso, meu gosto pelos atalhos, os meus dias de festa, o meu hoje e o meu eu, te te dou minha coragem.

Sim, eu me deixo.
Ser louca por você sem motivos e porquês ser louca por você, redundante. Eu me deixo ser aquela.
Eu me deixo deitar sobre a cama de mil fios daqueles lençois egípicios, a ouvir lendas ancestrais que acredito. Mergulhar e te buscar no mais profundo do rio e me banhar nos óleos e me perder nos aromas que eu mesma crio, um pouco de alecrim, o gosto fresco da sálvia e me deixo a te esperar com o cheiro puro da lavanda.
Sim. Eu digo sim. Eu deixo.
Eu deixo você entrar e ser a invasão, o esquecimento do ontem a falta de amanhã. Eu te deixo ser o agora. O delírio que nunca termina. A dúvida atroz, a vida entre nós. Eu te deixo ser só, o intervalo, aquilo que a palavra não alcança. Eu te deixo ser Gauguin.
eu te quero, e te dou as coisas que aprendi, minha insensatez, o monólogo que fiz, te dou minhas noites de paz e te deixo ser a tormenta; sim, porque eu te quero, te dou meu lugar onde nem mesmo eu alcanço, te deixo reinar, porque você é a incógnita, a pergunta, o mistério, e o que mais importa? 

sábado, 13 de agosto de 2011

Fome

Certeza minha, convicção infinita, quero comer o tempo.
Quero a arte do mundo, quero que a vida me queime

Na inspiração ofegante, nos vinhos escuros e intensos
Nos sabores extremos

Quero tudo isso muito sem ordem de preferência
Surpresa doce e salgada, respiração parada
Sentir a vida como o vento, vento no corpo

Eu quero  a maravilha
Quente, frio, seco, rasgada
A vida no meu rosto irrestrita


A vida é o filho que fecundei com o tempo
Ela está resignada passando, passando como o vento
Mas com o tempo não tem amor, é sexo violento,
Carnal, brusco, sem sentimento
A vida é força primitiva criada pela vontade
Dentro de mim uma mola, eu reproduzindo, ela nascendo
Quero botar fogo na vida e depois nada mais terei a explicar


O tempo não é meu amigo, ele quer me comer
E eu, eu já resolvi que vou deixar
Porque vou comer o tempo com minha fome imensa
Vou deixar que ele venha, vou deixar que me tome 

Porque sei que no fim ele quer o meu bem
E o bem pode estar no que a gente não entende


A vida é mãe, o tempo é pai, eu sou o filho problemático
Meu pai me encoraja a comê-lo, me encoraja a corrompê-lo
Ele me diz que jamais será meu aliado mas não devo temer
Eles me ensinam a desejá-los com todas as forças,
Sem nenhuma moral, esta coisa de acorrentados


Vou fazer sexo com meu pai e a loucura engrandecerá minha mãe.
Eles me encorajam a seduzi-los
Eles me ordenam que seja deste modo

É uma necessidade da existência
Vou fazer amor com minha mãe com delicadeza e emoções sobrenaturais
Vou fazer sexo com meu pai e vou parir a vida
O mundo existe pelo incesto.

Vou fazer sexo com meu pai
Vou fazer amor com minha mãe
Qual o tamanho da liberdade?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Vem para o Vazio

Se quiser vir, venha, mas vou logo avisando, se quiser chegar, chega, mas vem com gentileza porque meu coração está  desnorteado de tantos acidentes, já anda meu coração aflito por meia duzia de dissabores, por uma tremenda falta de gosto.

Se quiser vir, venha, mas vou logo avisando já nao sou mais a mesma, já não mais aquela de antes, estou assustada, os olhos sem emoção, e isto nao vai mudar, foi o tempo, o tempo, então venha e traga misterios bons  de serem vividos com surpresas e sem lagrimas.
Se quiser vir, venha  simplesmente, sem que eu perceba - sem avisos, recados, dramas - vem  e chega sem que eu note - eu não  aceito mais nenhum jogo e para que eu nao te mande embora venha de verdade, venha, e faça a minha vida ser mais facil, sem crises de ansiedade, sem medo de perder a noção, a linha, a alegria. Desculpe, eu não acredito em amor, eu gosto de mergulhar no afeto, mas o afeto é um negocio difícil. E eu, eu sei que é preciso querer, saber receber.

Se quiser vir, venha em silencio. Sem texto antigo, sem piadas, venha com poucas palavras, vem com simplicidade, sem amanhã,  vem principalmente sem tolices. E traga bons olhos que me enxerguem, traga um querer bem, venha percebendo cada gesto, vem com a leveza do vento, traz seus melhores momentos, mas chega de mansinho porque eu não tenho muito a dizer, nem muito mais a dar.
Tenha cuidado comigo porque eu não tenho muito mais a dar.
Eu estou sozinha, eu estou vazia.
Eu nao quero mais nada, nada.
Será que alguem me arrebata?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

De Tras Pra Frente em 19 linhas

descortina de uma vez a minha vida
desdobra,
acorda, me olha, me fita
descobre de uma vez a minha vida
me abre na trilha da mata cerrada
e vem me buscar aqui dentro e dentro da clareira sente
sente este cheiro verde de verdade,  
é o cheiro da minha vida,  vem aqui pra dentro agora
se molhar do orvalho e de todo céu da noite escura
entra sem temor do breu entra, entra pra esta noite escura,
pra esta falta de vergonha de viver 
o descontrole da vida de um só dia
e me busca lá dentro, bem dentro da mata fria
desembrulha de uma vez este presente
escreve de tras pra frente a nossa história
e me ensina pra sempre uma dança
que hoje eu acordei com a vontade
de viver intensa e diferente, eu que já não posso mais com tanta vida
que eu já não posso mais com tanta vida