quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ah, Cristiane!

Eu sonho, sonho o que eu nem sabia e sonho tanto que às vezes nem sei, qual é a minha vida. Eu sonho, e me pergunto, será que é verdade - aquela que já fui um dia? Aquela que sonhou pensando que sabia da vida de verdade, da verdade que sonhou a pensar que vivia. Eu sonho coisas estranhas, impossibilidades, que quando acontecem, não consigo dizer se foi sonho ou realidade.
Já sonhei que era Claude Lévi-Strauss.
Já sonhei que era  a mulher que espera, tomando um Dry Martini, treze minutos depois das onze. Na boca o batom vermelho pálido, o vestido estampado, o delicado gesto de consertar o cabelo e beber o drink, o dia, a vida - e a tolerância engolir muito dry. Ela me ensinou a dizer:

amanhã tudo bem, tudo bem,
we would try again,
may be someone, maybe
I'll try again

Já sonhei que dançava tango em um salão de mármore e que era Billie Holiday de cabelos molhados, embriagada pelo Gim, intoxicada de Blues, cantando - Don't explain...
Até fui comer salmão na Finlãndia e peguei na sua mão assistindo às noites brancas. Já sonhei com amores e viagens. Uma tribo estranha, gente matriarcal e risonha, que era como nós em outro espelho. E sem ânsia nem fome senti a prontidão da vida, plantei as sementes e comi as pitangas, fumei as folhas para nao desperdiçar, os cigarros de palha que aquecem o plexo solar.
Já sonhei tolices - que de tão tolas - não consigo escrever, escondo lá no buraco, atrás do buraco, feito à navalha no fio afiada dentro de mim, atrás do jardim cortado, cavado, onde escondo também o pingo gotejado de loucura com o qual imaginei, criei histórias de verdade que só cabiam na minha lucidez virginiana, longe do normal.Fora de mim não tem nada. Aqui dentro um mundo, uma casa, um lugar, um silêncio do fundo do mar.

Eu quis sonhar acordada. Não quis parar, eu não sei parar, se o corte é fundo, a lâmina é fria,abre a pele em finos flancos delicados e é doce a cor da pele se na dor não há pecado. Experimentei, a navalha, senti a pele, amei a cor. Eu estava acordada. Não há tristeza, o sonho me retratou.
Um céu em Amsterdam. Chá de hortelã na Turquia. Uma cerveja nos campos da Irlanda e passeios  com bicicletas vermelhas. Um inverno inteiro vivi para sonhar, o mais que perfeito silêncio do amor, sob a lua negra reinando em Ipanema e eu sozinha de olhos fechados. 
De onde parti, até onde cheguei, tem a vida escrita, a vida inventada, e aquela que eu não sei ao certo se vivi.

- Ah, Cristiane, eu sei que este texto não está bom...

3 luxinhos:

cris braga disse...

ah, Christiane! Eu adorei o texto! bjs

clower disse...

lady sings the blues...

ananda disse...

ta bom demais...