quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Lua Vermelha

A lua está vermelha 
Neste dia final a lua está redonda
Da música que toca logo ali,
E das lembranças minhas tuas, meu bem
A lua está vazia mas a minha melancolia é redonda.
A lua está vermelha, é o eclipse de você,  vestida da fantasia
Da saudade do que nao sei direito, do amor já desfeito
Do que me faz bem a lua está está cheia
Das lembranças do esquecimento
A lua está inteira,
No posto 6, na  praia
Na faixa de areia, no vento frio do Rio de Janeiro
A lua está inteira na lembrança do esquecimento
Na lima da persia da nossa caipirinha
A lua está colorida, amarela
Vermelha, coral, linda
E eu estou lugar comum
Repleta de histórias obvias, e não satisfeita
Deito no azul escuro
No desatino
Nos olhos negros de mar
Meus olhos negros de rio, o de águas paradas
Onde o vento sopra o colorido
Vermelho, coral, mais que linda,
Perfeita, a dança
A lua na noite dos orixás

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Prólogo Clichê

E coisa alguma que você dissesse poderia me tirar daquele estado de mudez, de confusão mental. E nem era confusão propriamente, é um outro estado de sentir. Quando você avisou  para nao acreditar em nada porque mentir era apenas um dos seus vicios, eu ri. Eu nao sei lidar com outras pessoas, eu nao sei evoluir neste tipo de assunto, eu nao sei mentir, nem mesmo fingir que estou mentindo. Do que exatamente estamos falando? Eu estou conversando com alguém que gosta de sexo e ficção entre outras coisas, por mim tudo bem, respondi, vamos ver o quanto você aguenta. Eu vou viver esta vida, eu vou fazer o meu personagem, eu vou entrar na sua vida sem você saber, é assim que vai ser a mentira, maior que a melhor das verdades. E você disse: meus outros vicios também me definem, não há qualidades aqui. Eu achei interessante, porque meus vicios também são minhas qualidades, mas não vou explicar. Eu só quero uma coisa de você. Você. Vem prá cá, eu digo.

Eu penso no vazio que estou sentindo agora, e olho bem para o seu rosto, para entender estas palavras que me soam tão antiquadas, e este vazio que nunca experimentei antes,  não quero me perder mais uma vez, mas no momento em que penso já me perco e não dá mais para voltar. Vamos viver o nosso roteiro clichê. 

Ah, a ficção da  vida cheia de vícios.

sábado, 5 de novembro de 2011

Para Colorir

ah, joguei o jogo sem ver as cartas
ah, nao tenho mais tempo, o tempo é minha morada
eu durmo com ele e não me assusta
o tanto que é o tempo, o minimo ou o muito
eu quero a unidade
vai e volta, vai e volta, balança com o vento
porque quero a vida, eu quero o movimento

estou pronta, estou na realidade
sou eu, sou outra, sou várias, e a mesma se quiser que eu seja, serei
sou estranha, sou mudança, a inexplicavel variação
sou doida, sou casta, criança
eu sou o agora, a fantasia, um sonho intenso de verdade
perfume, vicios, determinação,
sou o constante e o belo desconhecido,
o tempo parado correndo é meu professor
e me gasta lentamente os sentidos,  
presto atenção e aprendo, com insistencia
a ser quem não sou sendo eu novamente
porque eu quero seu gosto bom e impreciso a se repetir

ah, eu sou e não sou tambem
o que quero, o que posso, o que não aguento
sou completa, destoante sou aquele
instante a mais do que você desejar, serei 
homem, mulher, bicho, coisas, pedra e joías
o exagero que não sabia ser, eu fui
atrás do Eldorado escondido em mim
porque eu quero ser Cobra Norato e te buscar
naquelas terras do Sem-fim

eu sou vaidades ainda não descobertas
um brinco encontrado outrora perdido
um corte ardente e profundo sem medo de sangrar
insônias, beijos demorados e muitos silêncios
sou um quadro branco para você desenhar
sou seu enfeite
colar, pulseiras, anéis
os brilhantes e a prata, 
e sou também contas baratas
porque eu quero o colorido
eu quero jogar sem ver as cartas
pouco me importa, eu adivinho

porque estou vivendo por dentro da vida
a vida que invento
e ela respira aqui dentro, estou vivendo
a vida que me inventou

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Des)(ordem

chegou, pediu, levou, sorriu, falou, amou, ficou,
na madrugada aqui dentro, a escuridão 
foi sem palavra, foi no susto e com piada, sem remorso, com doçura, sem dúvida e sem dilema, era a música, foi a musica, o quente, a chuva, o áspero azul, o  quase verde claro e dourado reluzente
chegou, sorriu, levou, amou, ficou, brincou, cantou
 no amanhecer lá fora, o clarão
foi sem querer, com vontade, foi sem pensar com atropelo, sem culpa porque tinha a dança ilógica,
 maos, pernas, surpresa, cegueira, cintura,
 foi com a loucura
chegou, pediu, tomou, sorriu, queimou, fiquei
 por querer demais

Dose Simples

De tanto pedir amor, o amor me foi negado
Ah, nao me contaram que amor nao se cobiça,
Se ganha sempre sem saber que ganhou, quando se está distraido
Que é beleza sem uso 
E na prateleira descansa parado,
Aquele tal amor que pedi e me negaram

Ah, vou esquecer
E ter a graça do que é me dado
Forte e colorido, acústico
Corriqueiro e riscado, não quero o cristal
Agora estou preparado
Ah, quero o leite, o sangue, o álcool
Do meu amor desconhecido
Em um copo de vidro barato

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Quinta-Feira Viva

O dia lindo, o dia azul, a beleza para apreciar. 
Mas era uma quinta-feira clara e toda gente estava morta.
Toda gente não estava mais onde deveria ou eu estava cega, para o dia lindo, para todo o azul brilhante. Para apreciar. Eu estava cega para apreciar o belo. O pulsar das coisas, a vida. 
O amor era o que não havia na quinta-feira vazia.

Não há tristeza, nem melancolia. 
Nenhuma fantasia na quinta-feira pontiaguda. 
Sem o drama existencial meu, dos outros. Sentimental eu sou, como se é na música, Altemar, Camelo e eu, do meu jeito sou demais. Sou das minúcias e das mínimas porções. Dos diversos sabores para um só sentimento. Sou de um gostar calado, e constante, que uma vida inteira é tão pouco para uma mesma emoção.  Eu quis da vida a urgência, preciso também da calma, da contemplação. Na quinta-feira linda.
Sofri, porque não quero esquecer como se é feliz.
No entanto, existe um mal. 
Uma beleza fúnebre, acima do que se amou e  além do sentir que de fato foi amado. 
Resta uma realidade morta. É quando a gente sabe que já não se importa.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Caramelo

Ela pintou os olhos, como se fosse o último dia
O negro dos olhos, caramelo da cor do deserto
Ela se preparou para conhecer o mundo e saiu,
Saiu para o dia solar, azul, amarelo, vermelho, coral
E suspirou o vento quente
Que não desmanchou o cabelo envolvido no icharb negro

A túnica, o algodão egípcio, o mistério
E quase um sorriso para inventar um destino
Que ela mesma trançou nas sandalias ao caminhar sem rumo
Enquanto os mascates, as outras mulheres, a vida, o tempo
Todos pararam para ver aqueles olhos pintados 
De fumaça, sombra, cílios esparramados
 
O brilho escuro da berinjela
O prato de lentilhas fumegantes,
A folha da uva, 
O sol estridente 
E na boca o gosto do Anis 
                        quando ela saiu para conhecer o mundo

O vento quente soprou 
                        e não havia mais medo algum
Nos olhos úmidos que ela pintou
Negros, castanho caramelo da cor do deserto,
De fumaça, sombra, cílios esparramados
A se proteger somente com sua capa, seu icharb bordado
Quando tudo em volta era silêncio, silêncio dentro do quarto

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Redundante

Meu amor ficou escondido,
Meu amor ficou aturdido, de um jeito
que nao deveria estar, está louco  
Enlouqueceu aos poucos, porque não avisaram
que nao é saudavel amar demais,
Meu amor está doente, triste,
Meu amor ficou mal acostumado
porque não ensinaram que amor não era
aquele modo inacreditável de gostar, 
de marte, de venus, maldito
Daquele modo de amar desenfreado
Meu amor ficou fraco, meu amor ficou alucinado
De tanto amar está perdido pelos becos
Bruto, sem lei, sem jeito, feito no desgoverno
E feriu a si próprio
Quando pensava que era certo sentir
Medo, choro, lamento,
Do amor sem amor
O meu amor sofreu demais, tragou o amargo, provou o veneno
O meu amor que é cheio de vida, rústico, as sutilezas desconhece
Não lhe ensinaram que é pleno, o amor de verdade, é mar sereno
Não lhe ensinaram o necessário: ser simples, belo, divino,
Desprevenido,
O desejo, é óleo que queima no mistério
Arde lentamente, o desejo,
Queima sem parar
Destemido
Sem parar jamais
Redundante  

sábado, 10 de setembro de 2011

Lutos

Lutos
Pior do que o tabu da morte, é a vida em luto.
Já conheci a a ausência, a ausência definitiva. É como se a vida estivesse em todos os lugares, menos dentro da gente, é como se a vida não te pertencesse, é como ser outra pessoa. Porque o luto é devastador. O luto desarruma, por dentro e por fora, impregna de impotência e humilhação.
O luto é necessáio e hoje eu compreendo o quanto é preciso. O sofrimento atroz, o poço fundo. Eu sei o que é ficar estirado no chão, sem conseguir sentir que ainda existe sim, aquela pessoa que você foi um dia. É a sensação de desaparecer, não é morrer. É sumir. A alma vai embora, a alma deixa o corpo e então fica difícil viver. Como se vive sem a alma?
Eu já escrevi que a minha alma de vez em quando passeia, foge, vai vagabundear por aí. Mas é coisa consentida, é pura pilantragem de um modo de ser feliz .
Não sentir a própria alma é o manto de um luto inteiro a te encobrir. Vem uma dor esmagada. É a alma encolhida, a alma que está falecida dentro de nós.
Quando meu pai morreu não me deixaram ir ao enterro. Bom, as pessoas agem segundo suas próprias carências. Então, todos concordaram que aquele assustador momento, tinha que ser apagado. Mas querer apagar antes de esquecer é tentar fingir que não aconteceu. Seria triste eu estar no enterro do meu pai, pois ninguém sabia lidar com a situação do meu luto que se mostrava silencioso, ninguém queria arriscar mudar a calmaria daquele luto inocente. Uma criança orfã é a expressão do abandono, é a fragilidade do mundo adulto, a falta de explicação. Ninguém queria explicação para o silêncio da minha dor, e eu resolvi deixar, deixar.
Como eu desejei a despedida física, o adeus real. O concreto, a vida se movimentando, o adeus sem ilusão e sem a esperança de que algo extraordinário fosse acontecer, eu desejei ouvir e ver a verdade, aquela que não iria melhorar de repente, mas fazia a paralisia ter sentido.
A história que me restou para contar foi a de alguém que não pôde chorar, que teve vergonha de sofrer. Eu queria a minha história, queria a crueldade da vida, mas aprendi a fingir que não me doía. Enquanto isso, pensava racionalmente: como vou fazer agora, como vai ser? Quem eu vou ser, sem ele? Fiz muitos planos para essa equação. Mas a verdade, é que a minha vida, a partir daquela madrugada, a noite em que meu pai partiu, eu já adivinhara. Acordei cedo, antes de amanhecer, fazia muito frio, fui até a sala e vi minha mãe chorando de cabeça baixa. Tinha alguém com ela que me disse: vai dormir que não é nada, mas eu sabia que aquilo seria para sempre. E fui dormir calada esperando a tragédia.
Não poder vê-lo, nem no enterro, foi como se ele morresse duas vezes. Eu queria ter podido falar, ver meu pai, e sofrer sem a vergonha. Ele morreu duas vezes. E eu fiquei no personagem que me impuseram, fingindo que não estava entendendo nada. Eu queria ter dito que não me importava, nada importava, e que ele não ia morrer nunca. O pavor de esquecer me trouxe o imprevisto. Quanto mais eu me perdia da imagem, e da lembrança, sentia, eu sentia que a morte, que não existia a morte, não havia mais dor, eu e ele, a gente era uma coisa só. A gente era feito do imaterial amor. Então um dia pensei: agora vou começar de novo, agora vou ser outra pessoa.
A morte não é o meu maior medo. O meu grande medo é o luto em vida. Aquele que perturba e não passa, a escuridão que não vai embora, São as mortes que ficam dentro de nós, são as mortes em vida que precisam ser ultrapassadas. É não perder a alegria, é não se perder por aí. Largar a alma em qualquer companhia, deixar a alma ao relento, desprotegida no frio cortante, sem saber mais como voltar para casa. E é tão fácil se perder por aí.
Nascer novamente é um desafio. A grande pergunta é: quem eu vou colocar no lugar do buraco, no lugar do luto negro? Ah, não sei. Alguém. Ninguém. Talvez eu.
A verdade é que não tenho medo da morte. Eu não tenho medo da morte. Tenho muito medo é da vida, da vida mal vivida, da farsa hipócrita, da indiferença, da falta de coragem, tenho medo de complicar e perder o precioso tempo, tenho pavor da vulgaridade. Tenho medo de não conseguir ver o melhor. E o melhor é muito simples. Não é banal. É simples. A vida é simples.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Atávica

a casa vazia, o inicio da vida, os barulhos da rua
o onibus, vozes, a van gávea rocinha avisa que o dia já começou
faz a cama e ouve musica, trabalha e pesquisa,
a roupa é guardada no armario e a outra,
a roupa lavando na máquina
o café esquenta a boca, e tomo mais pra fraco, amargo
cardamomo se tiver eu ponho
porque eu vivo para os perfumes
comida é boa com alho e coentro
a cebola me faz chorar por diferentes motivos,
arroz com brócolis e azeite vai ter no almoço - gosto muito - os meninos também
o bolonhesa no fogo é com canela e pimenta que eu faço
para sentir o atávico gosto da vida
achando que estou no sagrado
porque hoje é dia de trocar os lençois
nesta sexta-feira nada santa

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Te amo como amo tuas ideias, que são minhas, e de todos que se entregam a elas.


Formidável. Colossal. Gigantesco. Fantástico. Magnífico. Avassalador.

As palavras são assim. Um significado e muitas nuances. Cada sinônimo uma carga de sentimento, uma nova imagem, uma outra maneira de dizer quase a mesma coisa. Eu aprendo muito com as palavras e nos últimos tempos o exercício obrigatório de escrever, acima de qualquer inspiração, me tornou uma pessoa melhor. Estou mais excentricamente eu e sabe-se lá o ônus que isso me causa, não sei, não me importa.

Eu não nasci para ser normal. No sentido mais perverso da normalidade. Desde que me entendo por gente penso ter aterrisado no planeta errado. No entanto, quando me dei conta que ser diferente é formidável tudo mudou.  Quando percebi que possuía o trunfo da estranheza a vida ficou mais fácil. Entendi que não posso ser ninguém melhor, se não for eu totalmente. O grande desafio está comigo. Na falta de normalidade. Na capacidade de me reinventar. Na minha tolerância. A minha tolerância é silenciosa mas não admite a prisão dos rótulos e não suporta as análises sociais feitas com base na falta de assunto.

Eu quero ser meu próprio personagem.

O meu personagem vive aventuras e tem um coração que segue uma bússola doida. Ele quer o amor, ele quer amar o amor que existe no mundo. Ele tem uma saga a cumprir e descobriu que ser apropriado e caber dentro do paletó atrapalha. O meu herói frágil, mas ainda sim um herói, não tem armas e só acredita na palavra, na palavra dita de todas as formas, na palavra sentida de todas as maneiras. Eu sigo com ele a descobrir trilhas para alcançar um lugar que nunca chega, pois o nosso lugar está no caminho.
Faz tempo parei de tentar me encaixar, não quero mais caber na roupa, deixei de usar o figurino adequado. O que sei é o que sinto. Estou a cada dia mais inteira, com todas as manias e fragilidades, verborragias e vícios. E estar inteiramente é como um egoísmo que nos transforma na pessoa mais generosa do mundo.

Eu desejo o extraordinário, os vários tons da mesma palavra. Todos os sinônimos. E o meu personagem, ele é intenso, está cada vez mais destemido e amoroso, perigosamente amoroso. Ser amoroso é a grande rebeldia. E saber receber o amor é o maior de todos os desafios.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Marina

Eu tenho uma amiga chamada Marina.
Se ela fosse minha irmã seria a caçula. Mas não é minha irmã.
É um amor na vida. E sabe como eu sei? Porque a gente se revela. Ela é novinha mas me dá broncas, conhece as coisas do mundo, entende os absurdos, me ensina muito, embora ela seja Balboa e eu Apollo Creed. A gente ri e toma cerveja, se perde na rua, escorrega na chuva e também esquece onde foi, porque foi sem motivo.

Vem me buscar quando eu peço, me ouve, me abraça, me aceita, me leva embora prá casa. Gosta dos meus defeitos, adora minha esquisitice, e depois me manda parar com garotice. Me chama de mau elemento, pivete desclassificada, cara de pau etc e tal.
Ela diz: você não vale nada então, fala a verdade prá mim!

Eu tenho uma amiga chamada Marina que me liga de madrugada. A gente não tem limite, não tem vergonha de nada. E nas conversas me mostra como é bom a gente ser gostada. Ela me deixa ser, e eu deixo que ela seja o chefe da minha quadrilha, que faz rimas como ninguém.

A gente espera para ver o sol nascer no Humaitá, no Jobi, no sofá da minha casa onde eu falo alto e ela dá gargalhadas. São dela os melhores monólogos e performances de atriz, de menina inteligente e bonita, de quem me faz feliz. Outro dia eu estava triste, e até quis chorar um pouquinho, mas isso ela não deixou. Porque ela é show de peteca e sabe que eu tenho síndrome de Casemiro de Abreu.

Só tenho uma coisa a dizer: eu tenho uma amiga chamada Marina.
Amizade pura que é mais que amor. E digo mais: quem há de negar que esta lhe é superior?

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Palavras Minhas

Eu não me acho poeta, nem intelectual, nem escritora. No entanto sonho com o texto perfeito. Tenho cismas com a palavra que conte o meu sentir absoluto. Eu tenho obsessão pela frase simples e cheia de cadência, tenho um som, eu crio o ritmo para o texto perfeito.
Hoje, trinta de agosto, acordei desejando as tais palavras certas para meu sentimento nada modernista. Hoje acordei antiquada, levantei melancólica, vazia, e com saudade de você. Eu estou Frank Sinatra.
Subitamente passou. Porque resolvi sentar e escrever. Cuidar da minha casa, dos meus meninos, sentar e escrever. Neste momento estou com uma alegria frivola, somente porque procuro as palavras certas.

Ontem fui dormir decididida a te escrever a palavra viva, te presentear com a palavra inpensada, quero mesmo te encantar. Mas não sei se consigo fazer direito, fazer bonito. Não sei se vai ser perfeito mas é o que eu tenho, básica e exposta, sou eu no emaranhado de letras a te procurar nas paisagens, nas historias, na falta de senso e de harmonia. Eu estou misturada às frases, sou eu com saudade, ouvindo Fred Astaire cantar "They can't take that away from me".
Poderia fazer uma rima com teu nome para dizer o quanto eu te adoro, mas seria tão pouco, não seria como eu quero. E porque a simplicidade é luxuosa eu quero te enfeitar também com loucura. Excesso de você.

Quero te dar de presente palavras que sejam uma pintura, quero te dar um texto impressionista.  Estou escrevendo para você. Eu gosto. Adoro pensar que cada quadro pintado é feito especialmente para te tocar e que eu estou mais para Frida Kahlo, apesar das peônias no braço.
Quero te pintar com palavras estranhas, sujas de beleza, mágica, emoção subjetiva, quero te dar palavras, as mais intensas, violentas, com teu gosto,  e as frases violadas do teu corpo.  Vou criar, à imagem das tuas ânsias, palavras que ainda carregam impregnado, o teu perfume. Eu quero pintar palavras que te beijam e te abraçam. 
Saiba que eu te dou palavras para te dizer tudo o que não consigo. Que não sei me expressar na vida, no dia a dia, e talvez não saiba amar como deveria. Eu sou excessiva. 

Eu não sei se consigo, não sei se estou aqui, eu sei que sinto   a emergência me estourando as veias porque eu  vou escrever que quero você, que está longe e a saudade tão perto. Eu gosto do teu sorriso, do teu exêntrico ser, eu gosto do teu calor,  da tua poesia. Já nem sei mais o que pensar. Vou te deixar a simplicidade e a loucura - é o que tenho - palavras minhas.

domingo, 28 de agosto de 2011

Aprender a Esquecer

Eu sempre soube o que dizer, sempre tão articulada, agora estou sem palavras, agora estou em um impasse silencioso de não saber, nem minimamente, o que dizer, tem uma história que não consigo contar, viver, achar graça, desistir, reagir, melhorar, fingir, argumentar, me mexer e caminhar, escrever, elaborar, ir na esquina, arrebentar, tem essa coisa como se fosse uma doença, que me deixa cansada, com febre alta, com desespero, sem reação. Eu nao sei por onde estou, onde me perdi, onde me escondi. Bom, agora está na hora de aprender a não ser. Bom, hoje está na hora de aprender a ser outro alguém porque eu já nao sei ser eu. Ser eu não está me ajudando, ser eu está piorando, ser eu está confuso. Ser eu está me doendo. Talvez eu devesse voltar a ter treze anos, voltar para aquele tempo que fazia parte de mim. Estou no caminho errado. Eu quero saber ter treze anos, com minhas certezas. Ai, que saudade de quem eu fui. Ai que saudade do que eu gostava. Eu jogava frescobol, eu nadava, eu ria fácil e tomava muitos caldos na praia de Ipanema. Eu dava colo para os amigos e tinha muita paciência para a vida. Eu achava graça e era muito animada, gostava de dançar mesmo sem saber dançar a dança, não tinha nenuma timidez porque eu sempre sabia a hora certa de todas as coisas.
E ser Domingo só piora tudo, eu queria que o dia fosse calmo, eu queria me encontrar, te encontrar, ter amigos, não ter conflitos, eu queria pelo menos poder chorar. Mas nem pra chorar eu estou servindo. Até isso eu já nao sei mais fazer, e me esqueci de como era bom ser natural e espontâneo, ser relaxado e alegre, nem isso me lembro mais. Está tudo esquisito, é domingo, eu vi o dia nascer, estava bonito, mas  não fiquei feliz. Eu queria poder sofrer com dignidade. Eu não sei mais nem o que pensar, eu nao sei para onde ir, estou em uma encruzilhada, não vejo beleza em nada, não vejo chance para mim. Eu quero desaprender de novo, a não ser eu novamente. Eu quero desaprender as coisas do mundo, eu quero desaprender isso tudo que um dia me interessou. Eu quero aprender a ter surtos e raivas e chorar até ficar com a cara inchada, eu quero aprender a ter tolerância comigo, eu quero aprender a desistir, eu quero gostar do abandono e ser feliz sem muito motivo. Só porque hoje é Domingo. Eu quero esquecer, quero apagar os vestígios, as pistas, a emoção, eu quero esquecer de como é sentir tanto, querer tanto, eu quero esquecer de como é não conseguir parar. Só porque hoje é Domingo. De tentar esquecer o que eu gosto, de você que eu gosto, dessa obsessão. Só porque hoje é Domingo. Vou aprender a esquecer.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ah, Cristiane!

Eu sonho, sonho o que eu nem sabia e sonho tanto que às vezes nem sei, qual é a minha vida. Eu sonho, e me pergunto, será que é verdade - aquela que já fui um dia? Aquela que sonhou pensando que sabia da vida de verdade, da verdade que sonhou a pensar que vivia. Eu sonho coisas estranhas, impossibilidades, que quando acontecem, não consigo dizer se foi sonho ou realidade.
Já sonhei que era Claude Lévi-Strauss.
Já sonhei que era  a mulher que espera, tomando um Dry Martini, treze minutos depois das onze. Na boca o batom vermelho pálido, o vestido estampado, o delicado gesto de consertar o cabelo e beber o drink, o dia, a vida - e a tolerância engolir muito dry. Ela me ensinou a dizer:

amanhã tudo bem, tudo bem,
we would try again,
may be someone, maybe
I'll try again

Já sonhei que dançava tango em um salão de mármore e que era Billie Holiday de cabelos molhados, embriagada pelo Gim, intoxicada de Blues, cantando - Don't explain...
Até fui comer salmão na Finlãndia e peguei na sua mão assistindo às noites brancas. Já sonhei com amores e viagens. Uma tribo estranha, gente matriarcal e risonha, que era como nós em outro espelho. E sem ânsia nem fome senti a prontidão da vida, plantei as sementes e comi as pitangas, fumei as folhas para nao desperdiçar, os cigarros de palha que aquecem o plexo solar.
Já sonhei tolices - que de tão tolas - não consigo escrever, escondo lá no buraco, atrás do buraco, feito à navalha no fio afiada dentro de mim, atrás do jardim cortado, cavado, onde escondo também o pingo gotejado de loucura com o qual imaginei, criei histórias de verdade que só cabiam na minha lucidez virginiana, longe do normal.Fora de mim não tem nada. Aqui dentro um mundo, uma casa, um lugar, um silêncio do fundo do mar.

Eu quis sonhar acordada. Não quis parar, eu não sei parar, se o corte é fundo, a lâmina é fria,abre a pele em finos flancos delicados e é doce a cor da pele se na dor não há pecado. Experimentei, a navalha, senti a pele, amei a cor. Eu estava acordada. Não há tristeza, o sonho me retratou.
Um céu em Amsterdam. Chá de hortelã na Turquia. Uma cerveja nos campos da Irlanda e passeios  com bicicletas vermelhas. Um inverno inteiro vivi para sonhar, o mais que perfeito silêncio do amor, sob a lua negra reinando em Ipanema e eu sozinha de olhos fechados. 
De onde parti, até onde cheguei, tem a vida escrita, a vida inventada, e aquela que eu não sei ao certo se vivi.

- Ah, Cristiane, eu sei que este texto não está bom...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tudo Igual De Modo Diferente

Não se pode banhar duas vezes no mesmo rio. Esta frase marcou por boa parte da minha vida.
Mas o difícil é reformular a tendência de querer o concreto, o cristalizado. É triste e fantástico perceber a impermanência. O movimento da vida.
Morrer para nascer todos os dias. É o preço da liberdade. Quem quer chupar essa manga? Quem vai dar a cara para o tapa? Mas no fundo, mesmo que não consiga a tranquilidade do desapego, estar consciente já é um alivio. É entender que só na impermanência se pode viver. E porque se aborrecer, quando já se sabe, que o fluxo é independente de nós?
Vou deixar que venha, vou deixar que me fira a ruptura e morrer um pouco a cada dia.  Vou deixar que me assombre o desconhecido e vou me permitir aprender novamente qualquer novidade.
Eu vou mergulhar neste rio, vou sim, mil vezes. Ele jamais será o mesmo.
Então, ouvirei aquela voz me dizendo: - se vira aí, minha filha, e aguenta essa dureza do mergulho, do profundo, da falta de ar. A dureza necessária para entender.
Vou deixar a vida tomar conta com sua lógica torta, sua lógica não matemática, para compreender abstrato. A certeza de que não há freio, que a vida não vai parar para me esperar. O que ela quer de mim  é esta calma, a calma complacente e louca.
É o que farei. Estou perigosamente calada. Mansamente em silêncio. Tem dias que acordo e não quero nem ser eu, estou apenas me fazendo companhia. Estou a observar, mapear, me perdendo nos labirintos. Dentro de mim tem buracos negros, jardins e grutas, um escuro gotejante, uma mata fechada e úmida, mas eu tenho também bancos de madeira para sentar ao sol. Tem muitos eus e vários deuses. Estou a passear. Com a calma necessária ao medo. Não quero ser eu. Estou no labirinto e na contra mão. 
Há vinte e dois anos nasceu meu primeiro filho. Hoje eu tenho três. Com vinte e sete eu liguei as trompas. E nada que eu faça depois disso terá a mesma importância, o mesmo valor, a intensidade da aventura. Tudo tem um preço. Como sou uma pessoa educada, peço licença e sigo, não olho para trás, não pego espelho emprestado.
Agora eu vou dormir. E começar de novo amanhã, um dia igual.
Tudo igual de modo diferente.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Dia Interminável

Acordei.

São cinco horas da manhã, o céu está azul claríssimo. A lua cheia e branca está viva.
Café. Suco de manga. Já são seis. O azul está mais azul no céu da lua cheia, agora muito ao longe, como você que não está aqui.

Onde quer que você esteja, e mesmo não estando aqui, vou te colocar no meu dia.
O café está quente, cheiroso, meu café é gostoso. Já são oito horas. O sinal sonoro da escola municipal em frente da minha casa toca, toca, mas você não sabe disso. Nem que eu faço bons sanduíches e panquecas para comer com queijo e mel. Muito embora você saiba que eu adoro agua de côco logo de manhã e que gosto de comer maçã. Ah, para mim já está bom. Para quê saber mais, não é?
Que eu gosto de acordar cedo e tomar banho quase frio. Que eu gosto de voltar pra cama com o cabelo ainda molhado. Que eu gosto de dormir com você.

Nove.
Eu gosto dessa hora da manhã. Eu estou de férias. Vou cozinhar peixe com limão e pimenta, misturar o ácido com o ardido e comer com batatas chips coradas no forno, crocantes e salgadas, salpicadas pela salsa. Assistir filmes, antes do meio-dia, gosto muito, isso eu te contei. Mas eu estou de férias de você.

Meia hora depois das doze, Etta James canta para mim, a comida traz um sabor até a sala, e eu sinto uma saudadezinha boa de você, uma saudade daquelas, linda e breve, feita de uma lembrança que já não recordo ao certo, está esmaecida, mas como já expliquei não lembrar é melhor que esquecer. Não lembrar é muito melhor que esquecer. Dá uma saudade aumentada e logo depois começa a tocar Arnaldo Antunes.  
Então eu resolvo escrever para colocar você na minha história, para lembrar de aprender a esquecer. Para sentir que a ficção é maior que a realidade, para viver a poesia que é maior do que qualquer sentimento, é o sentimento de todas as coisas, boas e ruins, que passam por nós. É falta de nexo que arruma a bagunça. A poesia é a  angústia e a descoberta daquela palavra que tanto se procurou, é a busca. A poesia é a frase certa e o alivio, é o não sei. Sou eu e é você.

Três da tarde. O sol vai alto. O dia quente brilha. A música ainda toca aqui em  casa. Ela me toca, me toma a cabeça, recheia meus pensamentos, que estão em um lugar desconhecido. A música me traz alguém, me traz de volta, me traz pra mim. Então eu confirmo, que a felicidade transforma, que a tristeza é um deja vu que se deve esquecer mas a gente gosta de lembrar. A tristeza é confortável, como um sofá acostumado com a gente. Vamos deitar pelo chão e ouvir Bethania sem medo de ser feliz. Para quê saber mais, não é?

Que eu gosto desta alegria que assalta à mao armada. Que eu gosto da euforia, da febre alta, de Stella Artois bem gelada. Que eu gosto de dormir com você.

Às três horas da tarde toda confissão é válida. Então já não sei sobre a ficção, a realidade. A literatura me coloca "no lugar onde quero estar", e esta frase peguei emprestada de você, porque às três horas da tarde só me resta a  liberdade, é como ser feliz por um momento, não importa, a felicidade pode ser um peso pelo medo da certeza de que vai acabar. Não me importo, se tem uma coisa que não sou é covarde, então eu posso te contar desta saudadezinha, perigosa e não comportada, que surgiu hoje só porque eu estava feliz por nada, neste dia comum e burguês.
Ouvindo musica, cozinhando e pensando em você. E para quê saber mais, não é?
O dia nem terminou ainda, dia interminável.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Dialética de Segunda-Feira

Sim. Eu digo sim. Eu deixo.
Você entrar, sentar, comer, me tomar, descansar no sofá, gargalhar, me engolir.
Sim , eu te deixo ser quem você quiser, ser alguém, ser meu bem, ser ninguém, ir mais além e ao longe que nao se vê, eu deixo você não ser o que não quiser.
Eu te deixo entrar e ser a incógnita, a pergunta e o mistério, te deixo ser o que importa.
eu te quero, sem caixa alta, sem relevo, do avesso, sem costura, sem frescura, naquele frio do outro dia, na ventania, pegando chuva  a correr pela rua, na feliz surpresa da falta de medo do imprevisto da vida. 

Sim, eu me deixo.
Ser louca por você sem procurar sentido, eu me deixo ser louca por você - sem precisar de acordo -e sem muita clareza eu me deixo, ser louca por você. Eu me deixo brincar de fingir, de colorir, de viajar, criar pensamentos sem pensamentos com pensamentos que só cabem você. Eu me deixo ser uma história que você conta sem pensar, uma invenção, um cha de ervas, um sonho intenso. Eu me deixo ser uma alucinação.
Sim. Eu digo sim. Eu deixo.
Eu deixo que você entre e seja o agora que já termina, o escuro da noite sem lua e a lua negra durante o dia, eu te deixo ser o calor misturado com frio, ser o exagero da pimenta, da ardência,  o desenho da flor, o corte, o rasgo, a dor, a quase morte, o desejado instante da tormenta.
Eu te deixo entrar e ser o desalinho,  o palco vazio, o solo mais lindo de Isadora Duncan.
eu te quero, e te dou o tempo de presente, a minha única flecha e o meu escudo, te dou meu traço curvo quase inocente, meu andar em descompasso, meu gosto pelos atalhos, os meus dias de festa, o meu hoje e o meu eu, te te dou minha coragem.

Sim, eu me deixo.
Ser louca por você sem motivos e porquês ser louca por você, redundante. Eu me deixo ser aquela.
Eu me deixo deitar sobre a cama de mil fios daqueles lençois egípicios, a ouvir lendas ancestrais que acredito. Mergulhar e te buscar no mais profundo do rio e me banhar nos óleos e me perder nos aromas que eu mesma crio, um pouco de alecrim, o gosto fresco da sálvia e me deixo a te esperar com o cheiro puro da lavanda.
Sim. Eu digo sim. Eu deixo.
Eu deixo você entrar e ser a invasão, o esquecimento do ontem a falta de amanhã. Eu te deixo ser o agora. O delírio que nunca termina. A dúvida atroz, a vida entre nós. Eu te deixo ser só, o intervalo, aquilo que a palavra não alcança. Eu te deixo ser Gauguin.
eu te quero, e te dou as coisas que aprendi, minha insensatez, o monólogo que fiz, te dou minhas noites de paz e te deixo ser a tormenta; sim, porque eu te quero, te dou meu lugar onde nem mesmo eu alcanço, te deixo reinar, porque você é a incógnita, a pergunta, o mistério, e o que mais importa? 

sábado, 13 de agosto de 2011

Fome

Certeza minha, convicção infinita, quero comer o tempo.
Quero a arte do mundo, quero que a vida me queime

Na inspiração ofegante, nos vinhos escuros e intensos
Nos sabores extremos

Quero tudo isso muito sem ordem de preferência
Surpresa doce e salgada, respiração parada
Sentir a vida como o vento, vento no corpo

Eu quero  a maravilha
Quente, frio, seco, rasgada
A vida no meu rosto irrestrita


A vida é o filho que fecundei com o tempo
Ela está resignada passando, passando como o vento
Mas com o tempo não tem amor, é sexo violento,
Carnal, brusco, sem sentimento
A vida é força primitiva criada pela vontade
Dentro de mim uma mola, eu reproduzindo, ela nascendo
Quero botar fogo na vida e depois nada mais terei a explicar


O tempo não é meu amigo, ele quer me comer
E eu, eu já resolvi que vou deixar
Porque vou comer o tempo com minha fome imensa
Vou deixar que ele venha, vou deixar que me tome 

Porque sei que no fim ele quer o meu bem
E o bem pode estar no que a gente não entende


A vida é mãe, o tempo é pai, eu sou o filho problemático
Meu pai me encoraja a comê-lo, me encoraja a corrompê-lo
Ele me diz que jamais será meu aliado mas não devo temer
Eles me ensinam a desejá-los com todas as forças,
Sem nenhuma moral, esta coisa de acorrentados


Vou fazer sexo com meu pai e a loucura engrandecerá minha mãe.
Eles me encorajam a seduzi-los
Eles me ordenam que seja deste modo

É uma necessidade da existência
Vou fazer amor com minha mãe com delicadeza e emoções sobrenaturais
Vou fazer sexo com meu pai e vou parir a vida
O mundo existe pelo incesto.

Vou fazer sexo com meu pai
Vou fazer amor com minha mãe
Qual o tamanho da liberdade?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Vem para o Vazio

Se quiser vir, venha, mas vou logo avisando, se quiser chegar, chega, mas vem com gentileza porque meu coração está  desnorteado de tantos acidentes, já anda meu coração aflito por meia duzia de dissabores, por uma tremenda falta de gosto.

Se quiser vir, venha, mas vou logo avisando já nao sou mais a mesma, já não mais aquela de antes, estou assustada, os olhos sem emoção, e isto nao vai mudar, foi o tempo, o tempo, então venha e traga misterios bons  de serem vividos com surpresas e sem lagrimas.
Se quiser vir, venha  simplesmente, sem que eu perceba - sem avisos, recados, dramas - vem  e chega sem que eu note - eu não  aceito mais nenhum jogo e para que eu nao te mande embora venha de verdade, venha, e faça a minha vida ser mais facil, sem crises de ansiedade, sem medo de perder a noção, a linha, a alegria. Desculpe, eu não acredito em amor, eu gosto de mergulhar no afeto, mas o afeto é um negocio difícil. E eu, eu sei que é preciso querer, saber receber.

Se quiser vir, venha em silencio. Sem texto antigo, sem piadas, venha com poucas palavras, vem com simplicidade, sem amanhã,  vem principalmente sem tolices. E traga bons olhos que me enxerguem, traga um querer bem, venha percebendo cada gesto, vem com a leveza do vento, traz seus melhores momentos, mas chega de mansinho porque eu não tenho muito a dizer, nem muito mais a dar.
Tenha cuidado comigo porque eu não tenho muito mais a dar.
Eu estou sozinha, eu estou vazia.
Eu nao quero mais nada, nada.
Será que alguem me arrebata?

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

De Tras Pra Frente em 19 linhas

descortina de uma vez a minha vida
desdobra,
acorda, me olha, me fita
descobre de uma vez a minha vida
me abre na trilha da mata cerrada
e vem me buscar aqui dentro e dentro da clareira sente
sente este cheiro verde de verdade,  
é o cheiro da minha vida,  vem aqui pra dentro agora
se molhar do orvalho e de todo céu da noite escura
entra sem temor do breu entra, entra pra esta noite escura,
pra esta falta de vergonha de viver 
o descontrole da vida de um só dia
e me busca lá dentro, bem dentro da mata fria
desembrulha de uma vez este presente
escreve de tras pra frente a nossa história
e me ensina pra sempre uma dança
que hoje eu acordei com a vontade
de viver intensa e diferente, eu que já não posso mais com tanta vida
que eu já não posso mais com tanta vida

sábado, 30 de julho de 2011

Se

Não que ela não fosse interessante, era demais até, não era bonita claramente mas o que importava é que possuía um tipo de beleza cheia de gosto, beleza a ser descoberta. Sim, ela era um continente a ser explorado, um sítio arqueológico imenso...

Não que ele não fosse um homem a quem qualquer mulher olharia duas vezes. Olhavam sim, elas olhavam inúmeras vezes. Mas eram olhares de pesquisa. Não que ele fosse um homem sem atrativos, era um homem como cabe a um homem quase belo ser, desprovido da ilusão dos artefatos, que não acredita na facilidade. No rosto dele, a cada novo olhar, ela percebe um detalhe que antes não havia, e nos repetidos encontros ele se transforma, a cada vez um novo homem - simples - e este detalhe lhe caia bem, ausência de vaidade, como um homem deveria ser...

Não que ela fosse a mulher da vida dele, não era, e ele soube desde sempre, e nunca quisera se enganar a respeito deste sentimento: a certeza do que não é para acontecer. Mas porque ela era interessante - e apesar de ter conhecido muitas outras mulheres a sentia diferente - desde o primeiro minuto a quis da forma como um homem pode querer uma mulher: sem muita explicação. E porque, e afinal, ela gostasse de dirigir à noite, enquanto ouvia uma música triste no rádio, e comesse algodão doce deixando o açucar lhe sujar a boca, e gostasse de gargalhar das piadas mais suspeitas e de se embebedar enquanto pensava sobre seus próprios pensamentos e porque, e afinal, ela fosse esquisitinha, ele gostava dessas facetas.

Não que ele fosse másculo, e forte, e corpulento, não era. Era natural, felino e monossilábico ao comprimir levemente os olhos como se estudasse o momento de encantar, e porque ele era míope ao usar o óculos este se misturava ao rosto cheio de ângulos, e como se adivinhasse o resultado exótico, aproveitava o artifício como uma beleza conquistada, adquirida. E embora soubesse que não era o homem da sua vida, ele possuia a consciência de cada movimento, ou seja - ela sabia que ele era o homem para o momento...

Não que fosse uma grande paixão, não, ele não faria loucuras por ela, nem teria atitudes extremas, mas era só dela este jeito de pressionar sua nuca e ao mesmo tempo sorrir enquanto repentinamente se calava e abstraia de qualquer assunto, e no silêncio sabia como falar as coisas mais importantes para que o mundo se tornasse infinito e pequeno ao mesmo tempo, o mundo era aquela mão na sua nuca, aquela mão que nem era bonita, era comum - ele diria, extremamente comum, apenas aquela mão na sua nuca...

Não que ele fosse um homem inteligente, era mediano, inteligente sim, em mínimas coisas, mas não acerca das situações do pensamento, vivia a realidade sem fantasia, e ainda que não fosse brilhante tinha momentos seus. Ela sabia que esta genial simplicidade o fazia ser alguém e que acima de qualquer filosofia havia aquele nariz meio quebrado, adunco, formando uma curva acentuada no rosto dele...

Não é porque ela fosse diferente, era o silêncio que vinha dela, pausa para o discurso não revelado, eram as palavras que não foram ditas que o faziam voltar a olhar para ela, era exatamente o que ela não dizia o que de verdade importava para ele, e então quando a deixava depois de cada encontro, quando já estava sozinho, dentro dele soava a silenciosa novidade que ela não havia contado...

E não era porque ela não soubesse sobre as variadas formas de amor, e carregasse a certeza de que jamais o amaria, mesmo assim ela o queria, por todo o paradoxo, e porque afinal não houvessem motivos para não querê-lo, ela o quis sim, com a naturalidade da falta de mistério, e porque ele era de uma clareza entediante - para quem as coisas existem sem meio termo e para quem todas as coisas são nomeadas - e porque para ele a vida existia sem as metáforas - por isso e apesar disso ela o queria...

E não é porque eles não soubessem que tudo termina e que a perfeição mora em uma casa sem chaves e, ao prever que seria por pouco tempo foram capazes, foram capazes, somente porque eles sabiam que a impossibilidade é possível...

domingo, 24 de julho de 2011

E Só

Hoje eu não quero.
Hoje eu não quero nada.
Hoje eu não quero nem ser eu.
Hoje eu não quero ser ninguem, nem existir eu quero.
E de fato não sei bem onde estou
Quero mudar de rua, de casa, de endereço.
Quero pegar o carrro e ir para Petropolis, São Paulo
Para o interior de Goias e quem sabe as Minas Gerais.
Mas cidade não.
Quero um fim de mundo, a mata verde e arvores grandes
Quero respirar
Hoje não quero mais nada, nem existir eu quero
Hoje não quero ter nome, estou cansada
Não quero que ninguem me chame
Neste dia obscuro e ainda claro, quero esquecer o hoje, o ontem, o amanhã
E só pensar que eu não quero que seja Domingo.
Porque Domingo só é bonito na música do Tim
Que por sinal nem gosto tanto assim
Eu não quero o Domingo, com as mãos muito frias, com o corpo dolorido
Ferido, pelo espinho taquicardíaco
Vamos pular para Segunda-feira e acreditar que tudo melhore
Sem dor, sem falta de ar, sem tristeza
E talvez na quinta a estranheza passe
O dia está branco, tomara estivesse cinza para combinar comigo
Com a bolsa, o sapato, o relogio e os brincos
E o meu coração vazio
Hoje nao quero nada, nem estas palavras
Eu quero logo que anoiteça sem ligar a Tv
Sem musica, sem barulhos, sem nada a dizer
Hoje eu não quero nada, nem ser eu, estou cansada
Vou pegar um foguete para outro planeta
Hoje eu só queria as estrelas
E só,
E chega!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sonho Simples de Inverno

eu quero um fim de semana sem ter nenhum pensamento
só você
eu quero um dia sem relógio, medindo o tempo a olhar para o longe
e para o ponto mais próximo que se pode alcançar entre você e eu
eu quero dias sem pressa, sem regras
comer quando a fome vier e esperar o anoitecer sem acender as luzes
ouvindo música sem hora para dormir, e então
pegar na sua mão, displicente 
a sentir a vida na delicada impermanência do momento

eu quero um fim de semana sem ter nenhum pensamento
só você
sem hora para acordar, 
sem despertador e devagar
café muito quento, queijo, pão preto, suco de manga,
geleia com raspas de laranja
o amanhecer frio, o inverno, os barulhos no jardim
o sol da manhã entrando pela janela e voltar a dormir
a sandalia havaina e meias de lã e sua mão
por dentro da minha hering branca

eu quero um fim de semana sem ter nenhum pensamento
só você
vamos almoçar às cinco horas da tarde, sem pressa de viver
porque a vida aqui é só um sonho onde a gente vai fazendo tudo, 
de acordo com a vontade
vamos jogar baralho e eu te ensino a jogar gamão - não vou prestar atenção
e deixar você ganhar, enquanto tomo caipirinha de cachaça com morango e carambola
a rir da minha distração que não tira os olhos de você

eu quero um fim de semana sem ter nenhum pensamento
só você
porque a noite é longa e pouca para o que eu sinto
a lua no céu dando um espetáculo que a gente assiste 
sem ter o que dizer, sem obrigação com as palavras, sem assuntos na pauta
vamos aproveitar em silêncio
o delicioso silencio do breve momento de ser feliz
o aqui e o agora que se inventa, que nao cabe em mim e não cabe em você 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Assim é Se te Parece

Eu não quero ser diferente. Eu não quero ser estranha. Gostaria imensamente de desfrutar o calmo pasto do rebanho mas pressinto que boa parte da minha vida tenha sido gasta no esforço de passar despercebida, misturada aos demais. No entanto, quanto mais e mais tentei não causar relevo, o inverso deste desejo me fazia saltar do tranqüilo anonimato. Eu, que só quis, durante boa parte da minha vida, me manter assim: no discreto ofício de sentir.

No fundo, sou uma síntese de todos os inversos e contrários daquilo que tentei não ser. Sou um quebra-cabeça que a todo tempo se reorganiza. Sou de uma normalidade excêntrica.

Sou comum. Sou extremamente comum, muito embora procure as emoções dissonantes na previsível passagem dos dias. Por isto devo contar logo, para que não se enganes comigo. Presumo que não saibas o quanto sou frágil, que tenho medo de alturas e que não gosto da excitação dos perigos. Não espero que me entendas com este meu jeito de olhar por todos os ângulos e a mania que tenho de querer sentir a vida por outra perspectiva.  Estou a me esforçar. Olho, imagino, repagino o ambiente. E se te recorto em busca do original da tua vida é porque só posso amar aquilo que me surpreende, e se te surpreendes também. Quero que me ensines a novidade do que eu já sabia. Eu gosto do cotidiano das pequenas coisas. Os acontecimentos banais e as obviedades me encantam.

Eu preciso te confessar um segredo: o imperceptível me arrebata. Grandes espetáculos se fazem sob o conjunto dos detalhes. Devo te lembrar que somos cegos. O que nos faz enxergar o mundo é a imaginação. Ah, quanto delírio escondido, quanta interpretação guarda o detalhe.

Saiba que de repente me deu uma enorme vontade – uma vontade sem motivo aparente – uma vontade concreta e pura de me entregar. Vou me entregar à minha  cegueira, beijar a palma da tua mão, e te deixar este segundo imaginado que jamais termina - marcada para sempre.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Amor Calado

Vem, que eu te espero, quando acabar o dia a gente se encontra 
Eu quero te contar a minha vida, os acontecimentos, do trivial
Os pequenos problemas
Vamos comer um sanduiche, tomar vinho na mesa da cozinha, ouvir vozes no vizinho
E ser feliz na simplicidade das oito horas da noite
Depois você vai tocar uma música no piano
Só para me perguntar se eu gostei
E eu vou gostar sem dizer mais nada
E o nada que eu disser
Saiba que vale o disparo de mil tambores
No diafragma e no peito, pelo corpo inteiro

A garrafa de vinho já pela metade vai estar
Deixada em um canto da sala
E não se incomoda por ser esquecida
O piano continua a tocar sem o abafador
E novamente me perguntará se a musica é boa
- Você é, respondo
Queria te falar tantas coisas, não consigo
Vou seguir o encanto, acreditar na mágica
Vou amar o transe,
Quando me segura pela nuca o amor
Que me olha com olhos negros e me encara de soslaio
E me faz doer as costelas
Esta espécie de amor calado